Flávio Bolsonaro tira foto com apoiadores durante visita ao Mercado Municipal de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo / Crédito: Charles Vieira |
Sob Duda Lima, Flávio Bolsonaro afina discurso e encontra rumo para sua campanha

Sob Duda Lima, Flávio Bolsonaro afina discurso e encontra rumo para sua campanha

Com discurso antissistema, mas aceno de não tentar golpe, candidato busca amarrar 'direita raiz' e 'moderados' cansados do PT


Beto Bombig

Após um período de cabeçadas, tropeções e caneladas, Flávio Bolsonaro (PL) parece ter encontrado um caminho para sua campanha a presidente. Em linhas gerais, a estratégia é amarrar todo o campo antipetista do eleitorado com três discursos complementares elaborados pelo marqueteiro Duda Lima e já disparados nos últimos dias em eventos na live semanal do candidato.

De um lado, Flávio reafirma ser o único e verdadeiro herdeiro de seu pai, Jair Bolsonaro (PL), com "nojo" do Supremo e outras agendas "antissistema". Em sentido contrário, tenta convencer a centro-direita conservadora-moderada e hesitante em relação ao bolsonarismo, mas extenuada em relação a Lula (PT), de que é uma espécie de "mal necessário" ao país por ser o único eleitoralmente capaz de derrotar o petista. Não por outro motivo, disse que, se eleito, fará um governo de "transição", ou seja, dentro das regras democráticas.

Em um terceiro vetor, Flávio se esforça para fazer algo que poucos conseguiram na história da política brasileira, que é tirar votos de Lula com acusações de desvios éticos e suspeitas de irregularidades, no caso, as investigações em torno de um dos filhos do presidente, Fábio Luís, o Lulinha, e de um assessor do petistas. Quer com isso nivelar por baixo a agenda ética-moral da campanha. Jogar pelo empate, digamos assim.

Esses são os três principais eixos da estratégia colocada na praça esta semana. Se acionada a tecla SAP para os discursos recentes, Flávio está dizendo: sou tão antissistema e corajoso quanto meu pai, que varreu do poder os malfeitores do PT, mas não tenham medo de mim porque prometo ficar só quatro anos no poder, sem tentativa de golpe.

Antídoto ao veneno de Kassab

A nova fase da campanha arquitetada por Duda Lima, que assumiu o posto de marqueteiro recentemente, e por outros estrategistas do entorno do candidato não deixa também de ser um antídoto ao veneno que Gilberto Kassab (PSD) inoculou no eleitorado antipetista ao dizer em público o que parte considerável da direita comenta em privado: Flávio é um candidato marcado para morrer eleitoralmente no segundo turno. Ou seja, será derrotado por Lula, que o "escolheu" como adversário.

A frase proferida pelo "pitonístico" Kassab soou como um gatilho para políticos, agentes de mercado e empresários antipetistas ainda traumatizados com as mais de duas décadas que o PSDB foi presa fácil para o PT nas disputas pela Presidência (2002, 2006, 2010 e 2014). Portanto, a nova fase da campanha passa por lembrar que apenas o sobrenome Bolsonaro foi capaz de vencer o campo liderado por Lula.

Assim, no domingo passado (16/8), em Copacabana, Flávio disse: "Eu estou mais do que preparado para enfrentar esse sistema podre, porque hoje o Brasil olha para Brasília com nojo. E vocês já perceberam, está todo mundo contra mim. Eu não sei qual é o medo que eles têm dessa palavrinha mágica chamada Bolsonaro". Além de reafirmar a ideia da força eleitoral da família, o presidenciável do PL retoma o discurso "antissistema" que levou seu pai à vitória em 2018.

Foi nesse sentido também que Flávio disse em São Paulo, na quinta-feira (20/8) que olha para o STF com "nojo". No mesmo dia, no entanto, para não assustar demais os que têm receio do radicalismo dos Bolsonaros, se colocou como "um presidente de transição". "O Brasil precisa atravessar um mar revolto nesse momento", afirmou, ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição em São Paulo e já cotado para concorrer à Presidência em 2030.

Ora, Flávio precisa do apoio de Tarcísio, líder disparado nas principais pesquisas eleitorais para o governo de São Paulo, e Tarcísio necessita, antes de tudo, que haja uma eleição para presidente em 2030. Assim, Duda Lima, respeitado pelo atual governador do estado, tenta criar uma sinergia entre as duas campanhas em nome de um horizonte comum.

Na mesma quinta-feira à noite, em uma live, Flávio se esmerou em desgastar Lula afirmando que o escândalo do INSS chegou ao gabinete do presidente, em uma referência a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete da Presidência, alvo de investigações da Polícia Federal (PF). Neste ponto, a mensagem para os conservadores-moderados é clara: se vocês acham que não sou digno de apoio por conta de minhas relações com Daniel Vorcaro (pivô do escândalo do Banco Master), o que dizer de Lula e do PT?

Bater fortemente em Lula é também uma resposta a Ronaldo Caiado (PSD), que tenta se apresentar ao eleitor como o "antipetista raiz" da campanha, pois já está nessa toada desde a eleição de 1989, a primeira depois da redemocratização (1985). Quando se posiciona como antissistema, Flávio mira para baixo em Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Novo), os dois presidenciáveis da direita aspirantes a esse posto.

Dessa forma, o filho mais velho de Jair Bolsonaro embute a mensagem de ter tudo o que os demais candidatos do campo conservador oferecem ao eleitor cansado de Lula, mas com uma enorme vantagem: é o melhor colocado da centro-direita conforme as mais recentes pesquisas eleitorais.

Se vai dar certo ou não, somente as urnas responderão, principalmente porque Flávio se tornou um senador reconhecido por sua habilidade de se adaptar "ao sistema". No entanto, não há como negar que após as caneladas recebidas por Flávio de Michelle Bolsonaro, o tropeço com o caso "Dark Horse" (Vorcaro) e a "bateção de cabeça" na escolha do candidato a vice (Alfredo Gaspar), Duda Lima parece ter conferido um rumo para o senador seguir neste início de campanha. logo-jota

Jota
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