Senado, uma eleição cheia de pirraça, por Mauricio Moura

Senado, uma eleição cheia de pirraça, por Mauricio Moura

Pesquisas internas do Instituto Ideia apontam que se perguntados sobre isso, não mais de 25% do eleitorado sabe que terá de votar duas vezes para o Senado


Mauricio Moura

"Nossa história se passa no Brasil de 1977, uma época cheia de pirraça", assim começa O Agente Secreto, o premiado filme brasileiro indicado ao Oscar. No Brasil de 2026, a eleição para o Senado também será cheia de pirraça.

Para começar, o Senado nunca foi um ator protagonista das eleições brasileiras. O eleitorado brasileiro segue um processo mental de engajamento da seguinte ordem: primeiro se conecta na corrida presidencial, em função da avalanche de cobertura, em seguida se liga nos pleitos aos governos estaduais e somente depois disso passa a pensar no voto para o Senado. Lembrando que o voto para deputados costuma ser decidido praticamente na boca da urna.

Para piorar, desde 2018, o tempo de campanha eleitoral oficial caiu pela metade. Desde então, a resolução mental de voto para o Senado se dá junto com a decisão sobre deputados. Ou seja, quase na hora de votar. Se Senado já era coadjuvante, passou a ser figurante.

Em 2022, no estado de São Paulo, as pesquisas de intenção de voto da véspera do primeiro turno apontavam que mais de 50% dos paulistas não sabiam falar espontaneamente o nome de um candidato ao Senado. E esse desengajamento se repetia em diversos estados. O resultado foi um voto para senadores de alta correlação com os votos presidenciais. O eleitor chegou no dia da eleição sem conhecer os candidatos e se perguntava: quem é o senador(a) do Bolsonaro? Ou do Lula? E assim votava.

Para complicar, em 2026, se vota para dois senadores. Pesquisas internas do Instituto Ideia apontam que se perguntados sobre isso, não mais de 25% do eleitorado sabe que terá de votar duas vezes para o Senado. Muita desinformação. Os dados históricos do Tribunal Superior Eleitoral mostram maiores níveis de brancos e nulos para o segundo voto de senador. Ou seja, o eleitor faz o primeiro voto e depois se perde. Em zonas eleitorais de menor renda e escolaridade, isso piora. Sinais evidentes de que parte relevante do povo tem dificuldades com a dupla escolha. Talvez esse segundo voto seja o agente mais secreto da eleição.

E o sistema brasileiro não ajuda. Ao invés de eleger os dois senadores mais votados (com eleitores fazendo um voto somente) ou fazer duas eleições separadas por estado (como fazem os Estados Unidos), no Brasil vota-se duas vezes para o mesmo grupo de candidatos. Isso na prática produz o fenômeno da segunda opção ser eventualmente a mais votada. Ou seja, o segundo voto de muita gente, vira o mais votado de toda a gente.

Todavia, em 2026, a disputa pode ficar um pouco mais arretada. Segundo a pesquisa Meio/Ideia de março, 44% dos brasileiros dizem que a chance de votar em um eventual candidato ao Senado aumenta se ele apoiar o impeachment de algum ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Esse índice chega a 75% para respondentes que se dizem informados sobre o escândalo do Banco Master. Ou seja, num país em que grande parte da população tem dificuldade em dizer o que faz um senador, a maioria já sabe que os eleitos podem destituir um juiz do STF. Essa temática de impeachment será central nessa campanha para se eleger senadores. As consequências disso são imprevisíveis.

Portanto, Senado é uma eleição de alta importância, baixo engajamento, elevada desinformação sobre a forma de votação, enorme desconhecimento sobre o papel dos eleitos e agora terá impeachment de juízes na mira dos eleitores. Já é favorita ao Oscar de corrida com mais pirraça de 2026.

*Mauricio Moura é fundador do instituto de pesquisa Ideia

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/mauricio-moura/coluna/2026/03/senado-uma-eleicao-cheia-de-pirraca.ghtml