O Brasil não cabe no quintal de ninguém, diz Lula na ONU, em recado aos EUA

Ana Paula Bimbati e Mariana Sanches
Do UOL, em São Paulo, e colunista do UOL, em Nova York

Em um recado claro ao governo dos Estados Unidos, o presidente Lula disse, durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, que o Brasil "não cabe no quintal de ninguém". O líder brasileiro não citou nominalmente o presidente dos EUA em nenhuma das críticas, fez menção ao fim da escala 6x1 e exaltou a democracia brasileira.

A declaração é uma referência aos discursos recentes de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, que voltou a falar da América Latina como "quintal dos EUA" no âmbito da Doutrina Donroe. O governo de Donald Trump fez uma releitura do documento, que afirmava a primazia e o controle político e econômico dos EUA sobre a região.

"Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para a maior integração entre vizinhos", afirmou Lula. O presidente também citou a situação da Venezuela e que a população "merece decidir seu próprio destino".

Ontem, em entrevista à CNN Internacional, ele disse que Donald Trump "age como um imperador" e pediu para que o líder norte-americano não interfira nas eleições brasileiras. "Não sou o tipo de cara que quer mostrar valentia. Eu não quero blefar. Eu não blefo. Eu gosto de respeitar, e eu gosto de ser respeitado e mostrar respeito. Essa é a relação que eu quero com os EUA", afirmou.

A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zona de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constitui gestos anacrônicos.

Lula


O presidente brasileiro foi o primeiro a discursar na Assembleia Geral da ONU. A delegação do Brasil é formada pelo chanceler Mauro Vieira, o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, e a primeira-dama Janja da Silva. Além deles, ocupam as cadeiras: Celso Amorim (assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais), Sérgio Danese (embaixador do Brasil na ONU) e Audo Faleiro (assessor-chefe adjunto da assessoria especial).

Críticas a ONU

Logo no início do discurso, Lula citou os "crescentes desmandos das superpotências", que segundo ele detém o "privilégio da insensatez". O presidente brasileiro também voltou a criticar a atuação do Conselho de Segurança da ONU em meio aos conflitos pelo mundo.

Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército, nem arsenais, nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel.

Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo. Democracia ou extremismo? Soberania ou subordinação? Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um estadista.

Assembleia de 2025

A reunião da ONU em 2025 ficou marcada pelo primeiro encontro entre Lula e Trump. No púlpito da ONU, o presidente dos Estados Unidos elogiou o líder brasileiro, dizendo que "ele parecia um cara muito bom, na verdade". O petista esboçou um sorriso, enquanto ouvia da plateia. "Mas nós tivemos, pelo menos por cerca de 39 segundos, nós tivemos uma ótima química", finalizou.

No último ano, no entanto, a relação entre os líderes passou por altos e baixos. Antes do encontro na ONU, Trump, aliado da família Bolsonaro, criticou o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no STF ao impor as tarifas contra o Brasil. Em dezembro, o governo americano retirou sanções impostas ao ministro Alexandre de Moraes, mas, nos últimos meses, impôs novas tarifas ao país.

Em 2026, um novo tema separou Lula e Trump novamente. Os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, movimento o qual o governo brasileiro é contrário. Na ocasião, Lula chamou a decisão de "irresponsável". Os líderes de Estado também passaram por um embate diplomático em meio a revogação de vistos. O governo brasileiro proibiu a entrada de um dos assessores de Trump, que pretendia visitar Bolsonaro. Antes, o presidente dos EUA já havia suspendido vistos de ministros brasileiros.

Uol
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