Natalia Boulos: advogada e militante defende Congresso alinhado a Lula - Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo - 29/10/2025 |
Disputa por puxadores de votos para Câmara dos Deputados acirra-se em SP

Disputa por puxadores de votos para Câmara dos Deputados acirra-se em SP

Candidatos e partidos buscam espólio eleitoral deixado pelos deputados mais votados de 2022 e que estão fora do páreo desta vez

Por Cristiane Agostine e Joelmir Tavares - De São Paulo

A corrida pelo "milhão" de votos em São Paulo, em busca do espólio eleitoral deixado pelos deputados federais mais bem votados em 2022, acirra a disputa nos partidos por novos puxadores na votação para a Câmara. Os quatro campeões de votos do Estado não disputarão um novo mandato, mas tentam manter a influência no Congresso a partir de 2027.

Guilherme Boulos (Psol), Carla Zambelli (PL), Eduardo Bolsonaro (PL) e Ricardo Salles (Novo) receberam, juntos, 3,33 milhões de votos, mas têm outros planos. Entre os deputados mais votados do Estado e que também não tentarão novo mandato estão Marina Silva (Rede) e Guilherme Derrite (PP), que concorrerão ao Senado.

Eleito com a maior votação por São Paulo e a segunda maior do país para a Câmara, com mais de 1 milhão de votos, Guilherme Boulos é o principal cabo eleitoral da advogada e militante de movimentos populares Natalia Boulos (Psol), sua esposa. Boulos foi nomeado ministro da Secretaria-Geral da Presidência em outubro de 2025 e decidiu ficar no cargo até o fim do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O ministro integra a campanha de reeleição de Lula.

Natalia destaca sua militância social de mais de duas décadas e diz que buscará o diálogo com mulheres e trabalhadores, sobretudo da periferia. Entre as bandeiras para a Câmara, destaca o combate à violência, o direito à moradia e à cidade, a luta contra "bets" e a defesa da democracia. "Precisamos de um Congresso mais alinhado com o governo Lula", afirma Natalia.

Carla Zambelli recebeu em 2022 a segunda maior votação do Estado, 946,2 mil votos, mas foi condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), foi presa, está inelegível e perdeu o mandato. A ex-deputada tenta emplacar sua mãe, Rita Zambelli (PL), além de apoiar a reeleição do irmão Bruno Zambelli (PL) como deputado estadual.

A ex-deputada foi condenada no ano passado pelo STF a dez anos de prisão e à perda de mandato por invadir sistemas de mandados judiciais do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com o auxílio de um hacker. Zambelli fugiu para a Itália e foi presa em Roma. No mesmo ano, teve o mandato cassado por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação ao espalhar notícias falsas sobre o processo eleitoral de 2022. Em maio, Zambelli foi solta.

Eduardo Bolsonaro obteve a terceira maior votação, com 741,7 mil votos, mas mudou-se para os Estados Unidos, perdeu o mandato e está inelegível. Nesta eleição, apresenta como seu "sucessor em Brasília" o deputado estadual Gil Diniz (PL), o "Carteiro Reaça". No material de campanha e nas redes sociais, Diniz vincula sua imagem à de Eduardo, do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). "Eduardo confiou a mim a responsabilidade de ser o seu representante para manter a nossa bancada forte."

Gil Diniz:
Gil Diniz: "Carteiro Reaça", é apresentado como sucessor de Eduardo Bolsonaro - Foto: Alesp/Divulgação

Ricardo Salles disse não ter gostado da experiência como deputado federal e preferiu concorrer ao Senado neste ano.

Dirigentes de partidos de esquerda e de direita de São Paulo avaliam que será difícil repetir as votações próximas a um milhão, como foi em 2022, com grandes puxadores de voto. A votação tende a ser pulverizada, segundo lideranças políticas do Psol, PT, PSB e PL ouvidas pelo Valor. Os mais bem votados do Estado devem ter cerca de 300 mil votos.

Principal afetado pela saída dos "campeões de voto", o PL priorizou recursos e estrutura para candidatos com potencial de suprir essas ausências e ajudar a eleger uma bancada robusta de deputados.

O partido já destinou cotas milionárias do fundo eleitoral para nomes considerados "puxadores de voto", como os candidatos à reeleição Mario Frias, com repasse de R$ 1,4 milhão, e Rosana Valle, ligada à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e recebeu R$ 3,1 milhões, valor idêntico ao teto de gastos para as campanhas de deputado federal nesta eleição.

Entre os que não têm mandato federal, além de Diniz, são citados como apostas do PL: o vereador da capital Lucas Pavanato; Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente Jair Bolsonaro; e o ex-candidato à Presidência Padre Kelmon. Defensora da hidroxicloroquina na pandemia, Nise Yamaguchi entra nesse rol e já recebeu do R$ 2,45 milhões do fundo eleitoral do PL.

Partidos avaliam que os mais bem votados de São Paulo devem ter cerca de 300 mil votos
A legenda de direita apresentou uma nominata de candidatos levando em consideração os apoios que eles são capazes de atrair, já que, no sistema proporcional, os votos podem ajudar a eleger outros postulantes e aumentar a bancada.

Pavanato, vereador mais votado da capital paulista em 2024, com mais de 161 mil votos, diz ter estabelecido um piso de 500 mil votos para alcançar. Ex-integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) e defensor de bandeiras ideológicas do bolsonarismo nas redes sociais, onde acumula milhões de seguidores (5,1 milhões no Instagram), ele afirma que o patamar alcançado por aliados há quatro anos aumenta sua "responsabilidade".

O vereador, que se descreve como "jovem conservador", diz que buscar a Câmara seria um caminho natural, por já tratar de "pautas nacionalizadas", como combate ao aborto, questões de gênero e restrição à participação de transexuais em esportes. Pavanato faz oposição à deputada Erika Hilton, que é transexual e defensora de direitos de mulheres e minorias - e também apontada como puxadora de votos do Psol, ampliando os 256 mil votos recebidos há quatro anos. Se ambos forem eleitos, deverão protagonizar embates na Câmara.

"Minha campanha é digital, chega a todo canto. E campanha de rua acabo fazendo mais na capital, até porque aqui é mais necessário", diz Pavanato, aliado de Nikolas Ferreira (PL-MG), deputado federal mais votado em 2022, com 1,49 milhão de votos, e candidato à reeleição. "Estamos trabalhando para ter uma bancada forte", afirma.

A semelhança física com o ex-presidente é vista no PL como um dos atributos que podem catapultar Renato Bolsonaro à Câmara, depois de ter disputado quatro eleições para vereador e prefeito e nunca ter sido eleito. Herdeiro do número de urna 2222, que pertencia a seu sobrinho Eduardo, disputa com o mote de "família Bolsonaro" e busca angariar apoio à candidatura de Flávio à Presidência.

Outro nome trabalhado pela direita é o de Janaina Paschoal (PP), que detém o recorde de votação para o cargo de deputado na história do Brasil. Em 2018, ao concorrer a uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo, a advogada e professora teve mais de 2 milhões de votos. Hoje vereadora da capital - eleita em 2024 com uma marca mais modesta, de 48 mil votos -, ela teria potencial para conseguir ao menos 150 mil votos no Estado, pelos cálculos do partido.

Erika, Dirceu e Tabata

No Psol, as principais apostas do partido já receberam cerca de R$ 2 milhões do fundo eleitoral. Entre elas, estão as deputadas Erika Hilton, Sâmia Bomfim e Sônia Guajajara, que tentarão um novo mandato. Lideranças do partido citam também o ex-presidente do Psol Juliano Medeiros, a deputada federal Luciene Cavalcante e o deputado estadual Guilherme Cortez, além de Natalia Boulos. A deputada federal Luiza Erundina não disputará a reeleição e tentará a Assembleia Legislativa.

No PT, dirigentes do partido avaliam que o ex-ministro José Dirceu poderá ter uma das maiores votações da sigla. Dirceu tinha a expectativa de "puxar" dois ou três deputados com sua votação, mas o tratamento contra um câncer atrapalhou sua campanha e pode fazer com que tenha uma votação menor do que esperava. O ex-ministro investe na campanha online, pelas redes sociais, e conta com o apoio de aliados, mas evita as ruas.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, e a vereadora da capital Luna Zarattini também são apostas da legenda, além dos deputados Paulo Teixeira, Jilmar Tatto e Rui Falcão, que buscam a reeleição, e do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha. "Não vai ter alguém com um milhão de votos, mas teremos algumas boas votações", diz o presidente do PT estadual, deputado Kiko Celeguim, candidato à reeleição. Kiko, Rui, Tatto e Teixeira já receberam R$ 1,8 milhão do fundo eleitoral, mais do que o R$ 1,1 milhão repassados a Dirceu, Edinho e Cunha.

No campo da centro-esquerda, lideranças políticas avaliam que a deputada federal Tabata Amaral, dirigente nacional do PSB, será a mais votada do partido e tende a ampliar sua votação. Ao se reeleger em 2022 com 337,8 mil votos, Tabata já havia recebido 73 mil votos a mais. A deputada estadual Marina Helou, candidata a federal, também é vista como um nome que deve ter boa votação no PSB.

Valor
https://valor.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/03/disputa-por-puxadores-de-votos-acirra-se-em-sp.ghtml