Turfe e o mercado de apostas esportivas online não são a mesma coisa; entender essa diferença é fundamental
Cyro Fiuza
Uma reportagem publicada há poucos dias em um jornal brasileiro de grande circulação suscitou ampla discussão no meio do Turfe, onde dirigentes, associados e alguns jornalistas avaliaram o teor do material. Para resumir, o texto abordava o avanço das Bets no setor cultural, utilizando recursos disponíveis para aplicação na Lei Rouanet.
Em que pese a atualidade do assunto e a validade da pauta, o equívoco discutido pelo grupo foi a utilização de uma ilustração de um páreo, em bela arte desenvolvida na década de 1960 pela empresa de apostas Sisal, ou Sport Itália Societá. "Usam uma imagem do Turfe para falar de Bets. Deveriam colocar um jogo de futebol", ressaltou um dos dirigentes, antenado com o que se passa tanto nas corridas de cavalos como nas atividades das empresas de apostas esportivas.
O episódio serviu para ilustrar a atual realidade do mundo das apostas, em que autoridades e mesmo jornalistas confundem as modalidades, geralmente colocando todas no mesmo balaio na hora de cobrar providências quanto à fiscalização ou arrecadação de impostos, entre outros pontos. Para todos, em geral, vale a mesma impressão: décadas sem jogo legal e amplo no país - exceção às corridas de cavalo e as apostas da CEF - criaram uma legião de "analfabetos" sobre o tema.
Sem a intenção de ofender autoridades, jornalistas, advogados e outros envolvidos na defesa ou no combate às Bets, mas há muito a ser aprendido pela sociedade quanto à dinâmica do jogo. Sua legalização e regulamentação foram as medidas corretas adotadas pelo Governo Federal, mas a fiscalização ainda peca. O entendimento do que é o jogo ainda é débil. As chamadas "odds", por exemplo, apenas sofisticaram o nome dos conhecidos rateios, termo usado há muitos anos pelo Turfe.
O que é importante frisar - fruto da reportagem e do comentário citados acima - é a diferença que não foi estabelecida pelo repórter, fruto não de maldade, mas do desconhecimento. Jockey não é Bet, e não serve de exemplo para discutir se as empresas de apostas esportivas vão entrar no segmento cultural ou que mais vão fazer por aí.
Jockey não é Bet e não se beneficia delas, pois cada hipódromo onde se disputam as corridas em todo o Brasil tem seu próprio sistema de apostas, seu próprio site (Web Turfe, em SP), e um dispositivo chamado "Pedra Única", onde as apostas são contabilizadas por um único sistema para que se alcance um maior volume de jogo.
Turfe não participa do milionário rateio das apostas esportivas
Jockey não é Bet e não participa do milionário montante de apostas que circula no país. Segundo dados do site especializado iGaming, com números compilados do Ministério da Fazenda, foram arrecadados R$ 220,6 bilhões em 2025, com devolução aos apostadores de R$ 183,7 bilhões, deixando uma receita bruta de R$ 36,9 bilhões (88% para as operadoras e 12% para a União). Recente reportagem do site Agência Pública estimou que essa arrecadação já tenha subido para R$ 30 bilhões por mês em 2026.
Jockey não é Bet, mas já foi... Quem conhece a história da entrada das empresas de apostas no Brasil, que começa ainda na década de 1990, vai lembrar que as duas primeiras Bets especializadas e de alcance mundial vieram exatamente por conta do Turfe, e se instalaram em Porto Alegre e no Rio.
Essas multinacionais do jogo encontraram uma brecha para regularização via Ministério da Agricultura e atuaram durante cerca de 20 anos, preparando o terreno para o objetivo maior - a entrada do jogo online no futebol. Ao longo do tempo, a parceria mostrou-se infrutífera, pois as Bets queriam comandar os sistemas de apostas dos hipódromos e disso os Jockeys Clubs sabiamente não abriam mão, em nome da autonomia das entidades e da lisura das corridas.
Nos Estados Unidos, onde os Jockeys Clubs também defendem o controle de seus sistemas de apostas, a concorrência das Bets e principalmente dos cassinos teve a intervenção do governo federal para fazer com que a legislação dos jogos passasse a destinar 1% da arrecadação aos hipódromos. Com esse movimento, garantiu-se uma concorrência não predatória e a manutenção do turfe, que lá gera milhares de empregos diretos e indiretos.
O hipódromo é um parque aberto
Jockey não é Bet e não pode ser comparado nem mesmo ao futebol, embora as duas atividades, guardadas as gigantescas diferenças de público e apostas, estejam sob o mesmo guarda-chuva de "esportes" na grande imprensa. E por que não podem ser equiparadas quando o assunto é jogo, se "é tudo igual"?
Por um simples motivo: os hipódromos não cobram entrada; são atrações gratuitas para o público, ou parques abertos a toda comunidade, em um conceito mais amplo e moderno de uma atividade que abarca esporte, tradição, lazer, cultura e convivência. Nesse amplo contexto, a aposta faz parte da atividade, mas não define sozinha aquilo que um hipódromo representa. Ao passo que o futebol mundial passa por uma remodelação que o torna cada vez mais sofisticado, e caro. Como se viu na recente Copa do Mundo disputada nos países da América do Norte.





