Presidente e antecessor ainda são as figuras centrais que projetam suas imagens em várias candidaturas e confundem o eleitor
Beto Bombig
A campanha eleitoral de 2026 começa oficialmente neste domingo (16/8) como um espelho invertido de 2018, quando Lula (PT) estava no cárcere da PF e lançou seu afilhado político Fernando Haddad (PT) para enfrentar Jair Bolsonaro, então no PSL, que acabaria vencedor. Agora, quem está em prisão domiciliar, fora do jogo, é o ex-presidente, único responsável por escolher seu primogênito, Flávio Bolsonaro (PL), para concorrer com o próprio Lula.
Direita e esquerda inverteram posições e papéis em um rebote duplo real que tem cara de tira-teima do tira-teima, porque entre 2018 e 2026 existiu 2022, quando Lula, liberado pelo Supremo, foi à forra e venceu Bolsonaro pai, já no PL. Agora, naquela que pode ser a última eleição disputada pelo atual presidente, essas duas forças abrem a campanha como as únicas verdadeiramente competitivas, seja para consolidar uma hegemonia ou retomar o poder.
A corrida presidencial de 2026 parece não ser uma disputa de campo aberto. Se transformou em uma autêntica sala de espelhos. O eleitor entrará na campanha tonto, cercado por dezenas de reflexos que distorcem a realidade. No cenário de oposição a Lula e de centro-direita, verá uma "ilusão de infinitas opções" devido à fragmentação de candidaturas.
Mas, se esfregar os olhos, descobrirá que, na verdade, ao menos até agora, o que aparece é a imagem multiplicada de um Jair Bolsonaro inelegível, projetada em múltiplos candidatos em diferentes eleições: seu filho Flávio, Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão), Tarcísio de Freitas (Republicanos), Michelle Bolsonaro (PL) e por aí vai.
Se procurar à esquerda, encontrará um Lula onipresente, multifacetado em vários outros Lulas: o "paz e amor", o que faz a "onça beber água", o "pai dos pobres", o que nunca foi um "esquerdista" e o "porreta". Os múltiplos do presidente estarão em vários palanques, especialmente naqueles que têm como missão primordial defendê-lo acima de tudo, como o de Haddad, em São Paulo, e o de Patrus Ananias (PT), em Minas Gerais.
Se o eleitor olhar para o centro, as divisões desaparecem em um chão cinzento de alianças confusas e pragmáticas. Há uma sensação de espaço infinito e novas saídas, mas a verdade é que o país parece estar preso em um labirinto, onde cada tentativa de avançar em direção ao "novo" corre o risco de bater com a cara no vidro rígido da polarização de sempre.
Assim, na casa de espelhos da eleição brasileira, goste-se ou não, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva ainda são as figuras centrais, que projetam suas sombras por toda a sala e transformam a campanha em um labirinto de espelhos.
Para não se perder, o eleitor precisa buscar o chão, a sua própria realidade. No labirinto, os olhos enganam porque focam no fundo do espelho. Na política, as projeções são as guerras culturais, os avatares de inteligência artificial e as promessas abstratas das redes sociais.
A porta de saída do labirinto está em trazer o debate nacional para a vida prática: como está a segurança em cada estado, qual o impacto real das políticas de saúde e educação no dia a dia das populações. A realidade do cotidiano é a única superfície que o espelho não consegue distorcer. O resto é apenas jogo de luzes, eco e fumaça para manter o eleitor tonto e perdido no corredor da polarização.
Café com leite
Um profundo conhecedor da política mineira diz que a pulverização de candidaturas competitivas na eleição governamental deste ano (seis no total) é um sinal definitivo da decadência das oligarquias que dominaram o estado nos últimos cem anos.Café com leite 2
Enquanto isso, em São Paulo, Haddad tem dito, em privado, que o sonho dos paulistas do interior é "voltar a 1889", quando a República foi proclamada e a oligarquia conservadora, representada pelo poderoso PRP (Partido Republicano Paulista), ascendeu ao poder.Terceira via no Paraná
Com três candidaturas competitivas, a disputa pelo governo do Paraná tem tudo para quebrar a polarização entre a esquerda lulista e a direita bolsonarista. O centro político, que passou a pré-campanha dividido, se reaglutinou em torno de Sandro Alex (PSD), o nome escolhido pelo governador Ratinho Jr. (PSD) para sucedê-lo.Terceira via no Paraná 2
Líder nas pesquisas, Sérgio Moro (PL), representante do campo bolsonarista, precisará empurrar Alex para a esquerda lulista, ocupada na largada por Requião Filho (PDT), representante do presidente. Se sobreviver à tentação de escolher um dos lados da polarização, o candidato de Ratinho Jr. tem grandes chances de chegar ao segundo turno. logo-jotaJota
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