Candidato do PSD afirmou que ainda não conversou com o promotor do Ministério Público de São Paulo; anúncio foi feito em apresentação de plano de segurança do ex-governador
Por Rafael Garcia - São Paulo
O candidato do PSD à presidência, Ronaldo Caiado, afirmou nesta segunda-feira, em São Paulo, que irá convidar o promotor Lincoln Gakiya para assumir o Ministério da Segurança, pasta a ser criada caso seja eleito ao Planalto.
Caiado disse que ainda não conversou com o promotor do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) mas que admira a sua atuação, a qual descreve como "determinada" e "resiliente".
- Talvez seja um dos homens que mais admiro pelo combate que ele tem durante uma vida. Ele é uma pessoa mais determinada no combate ao crime organizado no Brasil. Então quero que assuma esse ministério - afirmou durante evento de lançamento de seu plano de segurança.
Procurado, Gakyia não quis comentar a declaração de Caiado.
Principal nome do combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) no país, o promotor de Justiça Lincoln Gakiya já foi alvo de mais de um plano de assassinato da facção.
Gakiya comanda o Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) do MP-SP em Presidente Prudente. Ao longo de mais de duas décadas, acabou por se tornar o maior especialista e também o maior inimigo do PCC.
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O promotor de Justiça Lincoln Gakiya - Foto: Reprodução
Ele também foi responsável pela transferência das lideranças do PCC para presídios federais em 2019. Enquanto o governo de São Paulo hesitava por medo de uma reprise do terror dos atentados do PCC de 2006, Gakiya decidiu agir sozinho para isolar a cúpula do PCC no sistema penitenciário federal.
Sem apoio formal do governador ou do procurador-geral, protocolou o pedido de transferência de Marcola e outros 21 líderes. Um ato que ele mesmo classifica como seu "decreto irreversível de morte". Hoje, sua escolta rivaliza com a de governadores e presidentes.
'Operação reconquista'
A intenção de fazer o convite a Gakiya foi anunciada por Caiado no lançamento de suas propostas para a segurança caso seja eleito.Em um evento na sede de seu partido em São Paulo, o ex governador de Goiás discursou diante de uma apresentação de slides com dez pontos, listando suas principais promessas para a área. Seu plano foi batizado de "Operação Reconquista", em referência à retomada de territórios dominados por grupos do crime organizado.
Entre os tópicos elencados, estão medidas comumente apresentadas por candidatos de direita em eleições passadas, como a redução da maioridade penal para 16 anos e a criação de um ministério específico para cuidar da segurança, que hoje é atribuição do Ministério da Justiça.
Entre outros tópicos, foram mencionados também outros temas, como a criação de uma lei para qualificar facções do crime organizado como terroismo doméstico e a criação de uma "Polícia da América do Sul" para que outros países do continente integrem melhor o combate ao crime transfronteiriço.
Caiado afirmou que ampliará a quantidade de presidios federais de 5 para 40 durante seu mandato presidencial caso vença à eleição. Questionado sobre como faria essa ampliação radical, afirmou que empregaria tecnologia de contrução de centros de detenção modulares, com blocos pré-fabricados, que já teria sido usada em instalações em Goiás.
Segundo ele, a ideia é que essas instituições separem "soldados" do crime organizados de seus líderes, que ficariam em ambientes isolados.
- O terrorista, o faccionado mais temido do Brasil hoje é aquele que está preso, porque o Estado é obrigado a dar proteção para ele, e de dentro ele passa a comandar o crime que acontece fora da prisão - afirmou. - Se a prisao não for um isolamento completo, ela passa a ser um quartel-general do crime.
'Poder de convencimento'
Sobre a promessa de tornar facções criminais organizações oficialmente classificadas como "terrorismo doméstico", Caiado afirmou que não espera ter empecilhos no Congresso Nacional nem entre os governadores estaduais para implementar suas políticas.- Em hora nenhuma eu estaria invadindo prerrogativas dos estados - afirmou. - Na verdade, vou propor uma mudança constitucional para que os governadores, como eu que sofri muito com isso, possam ter a capacidade de legislar na parte de crimes também.
Segundo o candidato, além disso, terrorismo é um assunto que já é federalizado, e ao equiparar as facções criminosas a terroristas, isso permitiria ao governo federal entrar de forma mais detalhada no combate a essas organizações sem em interferência nas atribuições dos estados.
O plano de Caiado também listou como promessas a "retomada da Amazônia e das fronteiras" do Brasil, o "confisco de bens de quem matar mulheres", a "asfixia financeira do crime" e o combate à corrupção política.
Questionado sobre como levantaria recursos para implementar o combate ao crime, o ex-governador citou a criação de um fundo para depositar bens e recursos apreendidos de criminosos, que funcionaria de modo separado do orçamento discricionário, como dinheiro "extra" para investir em segurança.
Além disso, prometeu buscar usar crédito extraordinário do orçamento da União, que só é permitido em casos especiais. Segundo ele, seria fácil enquadrar "terrorismo doméstico" nessa categoria.
- Essa situação de guerra nos dá aquilo que hoje o governo usa irresponsavelmente para propaganda politica, que é o credito extraordinário - afirmou.
Questionado também sobre o desafio de cumprir uma série de promessas para segurança que dependem da aprovação de projetos de lei e emendas constitucionais, Caiado disse que tem "tranquilidade" de que terá esse "poder de convencimento".
- Isso é da minha experiencia como deputado e senador que fui, e sou o unico que acumula essa condição. - afirmou. - Tenho meu vice-presidente chamado Gilberto Kassab, e sabemos muito bem como chamar os presidentes das casas e os líderes dos partidos e mostrar para eles que essas demandas sao compatíveis com o que a sociedade deseja.
Kassab, procurado pelo GLOBO no evento, disse que preferia não comentar o plano neste momento, sinalizando que não queria roubar o protagonismo de Caiado na apresentação.
A apresentação do plano do candidato, feita na frente de um telão em que listava tópicos, foi feita intercalada com vídeos de reportagens sobre crimes de alta repercussão feitos por programas jornalísticos policiais de TV. O logotipo da proposta era uma estrela de xerife com o nome dado ao programa.
Caiado apresentou suas propostas pontuando-as com citações de dados sobre a melhoria de índices criminais durante sua administração como governador em Goiás. O estado teve efetivamente redução na taxa de ocorrência em alguns crimes, mas as informações apresentadas foram citadas se mencionar as fontes dos números.
O plano completo não foi distribuído aos jornalistas presentes na apresentação. Foi distribuído ao público um folheto impresso que resumia apenas 8 dos 10 tópicos apresentados pelo governador.
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/08/10/caiado-diz-que-ira-convidar-lincoln-gakiya-para-ministerio-da-seguranca.ghtml





