Dario Durigan: "O risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais e a inflação muito mais alta" - Foto: Washington Costa/MF |
Ataque de Milei abala relação com Argentina

Ataque de Milei abala relação com Argentina

Planalto ainda avalia impactos de episódio sem precedente nos 203 anos de relacionamento


Por Sofia Aguiar, Mariana Andrade e Giordanna Neves

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que os ataques feitos pelo presidente argentino, Javier Milei, no último sábado (25), abalam a relação entre os dois países e representam um episódio sem precedentes nos 203 anos de relações diplomáticas de ambas as partes. Apesar disso, o Palácio do Planalto ainda estuda possíveis efeitos no longo prazo. Nesta segunda-feira, Lula ironizou Milei, perguntando "Quem é esse cara?". Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou o presidente argentino de "palhaço".

No sábado (25), durante a convenção do PL que lançou Flávio Bolsonaro em São Paulo como pré-candidato do PL, Milei chamou Lula de "ladrão" e "presidiário" e atacou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem classificou como um "lixo careca". A crítica foi motivada pela decisão que impediu o presidente argentino de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília após ser condenado por tentativa de golpe de Estado.

"Quis ir ver meu amigo Jair Bolsonaro e não me deixaram, mas aqui o ex-presidiário veio cumprimentar a presidiária, não é? Ninguém o proibiu de nada. No entanto, não me deixaram visitar meu amigo, que, além disso, está injustamente preso", afirmou o presidente da Argentina em São Paulo.

As declarações provocaram reação imediata do governo brasileiro. No fim de semana, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para transmitir a repulsa oficial do governo às declarações do chefe do Executivo. Já nesta segunda-feira (27) Vieira e o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, se reuniram para uma primeira avaliação da situação bilateral entre Brasil e Argentina. O encontro durou cerca de 40 minutos. Segundo fontes, eles deverão voltar a se reunir após o retorno do chanceler de Lima, capital do Peru, onde representará Lula na cerimônia de posse da presidente eleita Keiko Fujimori, nesta terça-feira (28).

Antes mesmo do evento em São Paulo, o Executivo já monitorava a possibilidade de novas investidas de Milei contra o Brasil e trabalhava com diferentes cenários. A expectativa era de que, caso o presidente argentino restringisse as críticas a Lula e manifestasse apoio a Flávio, o governo brasileiro não elevaria o tom da resposta - e trabalhava, até mesmo, com a possibilidade de não responder às falas.

Nos bastidores, a avaliação era de que divergências políticas fazem parte do ambiente democrático e não impactam diretamente na relação entre os países. Desde que Milei assumiu a presidência da Argentina, em 2023, não houve a construção de diálogo com Lula e, mesmo assim, os trabalhos de cooperação entre as nações continuaram.

A orientação dentro do Planalto era manter cautela diante das provocações do presidente argentino. Interlocutores de Lula consideram que Milei tem pouca influência sobre o debate eleitoral brasileiro e avaliam que sua participação em eventos no país busca conferir projeção internacional à disputa política interna. O cenário mudaria, porém, caso Milei direcionasse ataques às instituições brasileiras, com críticas ao sistema eleitoral ou acusações contra outros Poderes. Nessa hipótese, o governo brasileiro pretendia avaliar o alcance das declarações antes de calibrar uma resposta mais contundente - o que aconteceu.

Ataques ajudam a reforçar defesa da soberania nacional, principal marca de campanha de Lula
Após as falas, Vieira se reuniu com Lula na noite de domingo (26) no Palácio da Alvorada para discutir o tema. O governo ainda evita projetar os desdobramentos do episódio para a relação bilateral, mas a orientação é que as respostas institucionais devem vir apenas quando Milei fere a soberania nacional e as instituições democráticas brasileiras.

Na frente eleitoral, ataques do argentino contra o Brasil, por outro lado, ajudam a reforçar a principal marca de campanha de Lula na disputa presidencial de 2026, que é a defesa da soberania nacional. A avaliação interna é que a nova conjuntura internacional, tanto com o tarifaço do presidente americano Donald Trump quanto com os mais recentes ataques de Milei favorecem esse discurso. Para aliados do petista, isso cria um ambiente favorável para explorar o contraste entre um governo que busca defender os interesses nacionais e adversários que seriam associados à pressão externa.

Mesmo com a orientação de cautela nas respostas, tanto Lula quanto ministros do seu governo fizeram, nesta segunda-feira, uma espécie de força-tarefa para rebaterem Milei. "Quem é esse cara?", afirmou o próprio Lula ao ser questionado antes de agenda com o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, no Palácio Itamaraty.

Já Durigan afirmou que a economia brasileira está em melhor situação do que a argentina, citando o risco-país, a dívida pública e a inflação, e classificou o presidente do país vizinho, Javier Milei, de "palhaço".

Em entrevista à Rádio Jornal de Pernambuco, Durigan afirmou que "não dá para entrar na onda" de quem diz que a economia brasileira caminha para um cenário "apocalíptico". "O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil e falou de Brasil quando o risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais e a inflação muito mais alta", disse.

No fim do dia, Milei respondeu com uma série de postagens nas redes sociais. "Lula é um ex-presidiário e, quando veio à Argentina, visitou sua aliada condenada. Ele é o fundador do Foro de São Paulo e mantém Bolsonaro inelgível", dizia um dos conteúdos repostados por ele, referindo-se à ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner.

Valor
https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/07/28/ataque-de-milei-abala-relacao-com-argentina.ghtml