Apuração foi iniciada a partir de relatórios do Banco Central que apontaram manipulação de demonstrativos contábeis e registros regulatórios para ocultar a situação financeira da instituição
Por Tiago Angelo, Valor - Brasília
O banco Digimais, do bispo Edir Macedo, teria replicado o modus operandi do Banco Master ao "maquiar" sua "real situação de insolvência" e instrumentalizar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como "mecanismo de cobertura". A conclusão é da Polícia Federal (PF).
O banco foi alvo de operação de busca e apreensão nesta terça-feira (23), denominaa Miragem, para apurar suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional (SFN). A apuração foi iniciada a partir de relatórios do Banco Central que apontaram manipulação de demonstrativos contábeis e registros regulatórios para ocultar a situação financeira da instituição.
"O banco Digimais, sob o controle de Edir Macedo, adotou práticas financeiras temerárias e estreitamente análogas às do extinto Banco Master", diz trecho da representação da PF enviada à 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo.
De acordo com a representação, o "modelo operativo" adotado pelo Master funcionou como "paradigma" para outras instituições financeiras de médio porte, em um cenário de "contágio no mercado", que consistia em se sustentar a partir da cobertura do FGC para "captar liquidez".
"O Banco Digimais replicou a prática de superavaliar ativos mediante a emissão de títulos com rentabilidades desproporcionais aos indicadores de mercado, efetuando manipulações nos balanços com o objetivo de ocultar dos órgãos de controle a deterioração da sua carteira de crédito", diz a PF.
"Estabelece-se, por conseguinte, uma dinâmica na qual os causadores da insolvência repassam a integralidade do prejuízo para o sistema de proteção, logrando isolar os seus respectivos patrimônios dos resultados da atividade desempenhada e afastando-se da operação sem arcar com a responsabilidade pecuniária pelas obrigações contraídas", prossegue.
Ainda de acordo com os investigadores, o aporte de valores do FGC para o socorro de entidades cujos passivos resultam de fraudes ou de práticas de crimes pode constituir desvio de finalidade.
"Assim, tal linha de ação configura a subversão do propósito do FGC, uma vez que os recursos estabelecidos para a blindagem de poupanças de cidadãos no âmbito do Sistema Financeiro Nacional acabariam destinados à absorção de prejuízos de delitos, o que corrompe o mecanismo de proteção de sistema e recompensa os autores de infrações", prossegue.
Operação
Ao todo, na Operação Miragem, deflagrada hoje contra o Digimais, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo. Também foi determinado o bloqueio de R$ 670 milhões de investigados.Os investigados poderão responder pelos crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas.
Em nota, a instituição de Edir Macedo afirmou que "mantém suas operações regulares, conduzindo sua estratégia de negócios com responsabilidade, disciplina e foco na perenidade das operações".
"A instituição reitera seu compromisso inabalável com a transparência, a solidez financeira e a prestação de informações consistentes a todos os seus clientes, parceiros e públicos de interesse."
Valor
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