Na Inglaterra, flat white foi adotado como bebida nacional sem qualquer constrangimento histórico  Foto de Joe Hepburn no Unsplash |
O mundo em uma xícara: edição especial Copa do Mundo 2026

O mundo em uma xícara: edição especial Copa do Mundo 2026

Além das estratégias e técnicas do futebol, o café também revela as diferenças culturais entre as nações


Caio Tucunduva, colaboração para o Viagem & Gastronomia

Enquanto o mundo se prepara para o maior show de futebol da história, há um outro campeonato que ninguém percebe. Ele é silencioso, aromático, servido em xícaras.

Antes de qualquer chute, antes de qualquer gol, antes de qualquer bandeira desfraldada ao vento das Américas, acontece uma cerimônia tão antiga quanto a civilização: alguém acende um fogo, aquece água e convida o mundo para uma conversa. Essa conversa se chama café.

Neste verão de 2026 no hemisfério norte, 48 seleções chegam aos Estados Unidos, ao México e ao Canadá carregando nas chuteiras o peso de nações inteiras. Nas malas invisíveis da cultura, cada uma traz também um modo muito particular de entender o que é uma boa xícara.

E ali, nessa diferença sutil entre um espresso napolitano e um pour-over etíope, entre um cortado madrileño e um café da manhã americano com filter coffee ralo como água de pires, está toda a filosofia de um povo.

Percorri o mundo dos cafés especiais com o olhar de quem já viu demais para se surpreender e, ainda assim, se surpreende. Fui encontrando, em cada ritual de preparo, um DNA cultural tão rico quanto qualquer tática de jogo. O café não mente. Ele revela de onde a gente vem.

Sente-se. Deixa esquentar. Esta é a Copa do Mundo que vai te surpreender. O futebol dura noventa minutos, mas o café fica na memória para sempre.

Os grandes protagonistas: nações, seleções e seus cafés


Brasil


Há uma injustiça histórica que os brasileiros aprenderam a engolir com uma colherzinha de açúcar: por décadas, o maior produtor de café do mundo exportou sua riqueza em grão verde, deixou os outros torrar, moer, embalar e lucrar e ficou bebendo, em casa, o pior de si mesmo. Um café que virou combustível de trabalhador, amargo e queimado, mascarado de açúcar. Mas a virada aconteceu.

A terceira onda do café especial encontrou no Brasil um terroir de dar inveja ao mundo. O Cerrado Mineiro, o Sul de Minas, a Chapada Diamantina, o Espírito Santo, cada microclima pariu perfis sensoriais que sommeliers europeus chamam de extraordinários. Frutas tropicais, chocolate, mel, caramelo. Processos naturais que produzem xícaras que parecem sobremesa.

Hoje, a geração que vai levar Vini Jr. e Endrick ao campo em Nova York e Los Angeles também sustenta cafeterias de terceira onda em São Paulo, no Rio, em Belo Horizonte, onde baristas jovens falam de acidez, corpo e retrogusto com a mesma seriedade e paixão com que um técnico discute pressão alta e bloco baixo. O Brasil ainda não aprendeu a cobrar pelo que tem de melhor no futebol. No café, está aprendendo.

Argentina


Fachada do Café Tortoni, fundado em 1858  Saulo Tafarelo
Fachada do Café Tortoni, fundado em 1858  Saulo Tafarelo

A Argentina, campeã do mundo em 2022, chegou ao título carregando algo que vai além do talento de Messi. Carregou uma atitude, uma crença quase tangueira de que o destino pode ser dobrado pela vontade. É exatamente assim que um argentino toma café.

Os cafés históricos de Buenos Aires - o Tortoni, o La Biela, o Bar Notable - não são apenas estabelecimentos. São repúblicas independentes da pressa. O cortado chega à mesa pequeno, concentrado, com uma casquinha de espuma que um barista portenho leva a sério como uma questão de honra nacional.

O movimento de cafés especiais chegou a Buenos Aires com a energia de um contra-ataque veloz. Bairros como Palermo e San Telmo encheram-se de torrefadoras artesanais que passaram a importar grãos da Etiópia, da Colômbia e, com certa arrogância encantadora, a declarar que o espresso italiano não é o único caminho para a iluminação. O método aeropress virou religião entre os jovens. O flat white australiano ganhou cidadania portenha. E o mate? Ah, o mate segue inabalável, paralelo a tudo, como um velho costume que não se negocia.

Espanha

A principal favorita desta Copa tem algo em comum com seu futebol: a obsessão pela posse. Os espanhóis possuem o tempo de uma forma que outros povos simplesmente não conseguem. Isso começa no café. Não há pressa em Madri, em Barcelona, em Sevilha, quando se trata de um café con leche com tostada às dez da manhã, lendo o jornal, discutindo futebol com o garçom e deixando a vida acontecer no ritmo certo.

A Espanha nunca se rendeu completamente ao furor nórdico dos cafés especiais de terceira onda. A cultura do espresso profundo, torrado escuro, misturado ao leite inteiro e servido com um pan con tomate é sagrada demais para ser questionada. Mas, nas capitais, uma nova geração de cafeterias surgiu para dizer que é possível honrar a tradição e ainda explorar os horizontes de um Geisha colombiano servido em V60. Um café espanhol bem feito é como um gol espanhol: elegante, necessário, inevitável.

França





Paris sempre foi palco de revoluções. A política, as artes, a culinária. A revolução do café especial demorou um pouco mais para atravessar o Canal da Mancha e descer o Sena, talvez porque os parisienses estivessem muito ocupados defendendo o seu noisette amargo de brasserie como obra-prima incompreendida. Mas chegou. E chegou com força.

Torrefadoras como a Belleville, a Coutume e a Honor transformaram bairros inteiros de Paris num tour de experiências sensoriais, em que um Burundi de processo lavado pode custar o mesmo que um copo de Bordeaux e justifica o preço. A juventude parisiense que ouve rap e milita nas redes sociais adotou o café especial como símbolo de uma identidade global sem abrir mão do croissant.

Mbappé não precisa de tática: ele é a tática. O café especial francês funciona igual. Quando é bom, dispensa explicação. Entra na boca, sobe para a cabeça, e você sabe que aquilo é diferente de tudo que você provou antes.

󠁧Inglaterra

Há uma ironia deliciosa no fato de o país do chá ter se tornado, nas últimas décadas, um dos epicentros mundiais do café especial. Londres hoje rivaliza com Melbourne e Portland como capital do café de terceira onda e o faz com aquela mistura britânica de seriedade, excentricidade e competência discreta que os ingleses têm o dom de exercer sem alarde.

Shoreditch, Soho, Bermondsey: bairros que eram depósitos abandonados viraram catedrais do café. Grãos de origem única da Etiópia e do Peru passam por torrefações que parecem laboratórios farmacêuticos, servidos por baristas com o rigor científico de quem está descobrindo algo pela primeira vez. O flat white, que os australian

os dizem ter inventado, foi adotado como bebida nacional sem qualquer constrangimento histórico.

A seleção inglesa carrega esse DNA de quem levou tempo para amadurecer, mas chegou com tudo. Harry Kane não é bonito de ver, mas é absolutamente eficaz. O café especial londrino também não veio para enfeitar, veio para ser o melhor. E às vezes é.

Alemanha





Não existe povo que respeite mais uma tabela de extração do que os alemães. Em Berlim, Hamburgo e Munique, o café especial é tratado como projeto de engenharia. Temperatura da água controlada ao décimo de grau, proporção grão-água medida em balança digital, tempo de extração cronometrado. O Kaffee trinken alemão sempre foi uma cerimônia séria, acompanhada de bolo no domingo, e essa seriedade migrou naturalmente para o universo specialty.

A Alemanha tem hoje algumas das melhores torrefadoras da Europa. Bonanza, The Barn e Five Elephant em Berlim são referências mundiais. A cultura do café de filtro, que nunca saiu de moda por lá enquanto o mundo perseguia o espresso, acabou se tornando profecia antecipada: a terceira onda validou o que os alemães já faziam havia décadas sem saber que eram modernos.

A seleção alemã renovada chegará ao torneio buscando recuperar uma grandeza que parecia perdida. O café alemão nunca esteve em crise, só esperava o momento de ser reconhecido. Às vezes, ser obstinado e metódico é a maior vantagem competitiva que existe.

Portugal


A bica é o espresso português, servido quente, escuro, em xícara de porcelana branca sobre um pires  Foto de Cup of Couple no Pexels
A bica é o espresso português, servido quente, escuro, em xícara de porcelana branca sobre um pires  Foto de Cup of Couple no Pexels

Nenhuma cidade do mundo cheira a café como Lisboa. É uma afirmação sem base científica e com toda a base sensorial possível. A bica, espresso português, servido quente, escuro, em xícara de porcelana branca sobre um pires inevitável, é uma instituição nacional tão inabalável quanto o fado de Amália ou a pastelaria de Belém.

Portugal descobriu o café especial um pouco mais tarde que seus vizinhos europeus, mas com o entusiasmo de quem está fazendo a descoberta mais importante de sua vida. Lisboa se transformou num destino de peregrinação para amantes de cafés especiais, novos bares de specialty surgiram no Príncipe Real, em Mouraria, no Intendente, cada um com sua filosofia de torra e preparo, todos com aquela luz de fim de tarde que só Lisboa sabe produzir.

Cristiano Ronaldo continua sendo a bica de Portugal: pequeno na embalagem, imenso no impacto, impossível de ignorar. E cada vez mais, ao seu redor, uma nova geração de cafés e jogadores promete que o melhor de Portugal está sendo servido agora.

Estados Unidos

Há uma poética irônica perfeita no fato de que a Copa do Mundo de 2026 seja sediada no país que, durante décadas, foi o símbolo do mau café, aquele líquido morno e ralo dos "diners" americanos, servido em caneca descartável, reabastecido de graça porque mais não é mais. Era o café do mundo que não tinha tempo para o café.

Mas os Estados Unidos fizeram o que sempre fazem quando se interessam por algo: levaram ao extremo. Portland, Seattle, São Francisco, Brooklyn. A terceira onda do café especial nasceu ali, nos anos 2000, quando jovens de flanela e óculos grossos decidiram que o café merecia o mesmo respeito que o vinho biodinâmico e o queijo artesanal. Surgiram torrefadoras que se tornaram impérios globais. O pour-over, o cold brew, o aeropress, tecnologias americanas de extração que viraram língua franca do café fino no mundo todo.

O futebol americano também fez essa viagem: de esporte ignorado a protagonista desta Copa inédita de 48 seleções. Os anfitriões chegam com humildade e vontade. O café americano de especialidade chegou com arrogância e qualidade. Os dois, curiosamente, aprendem juntos o que significa jogar no mais alto nível.

Quando o árbitro apitar o fim da Copa do Mundo de 2026, alguém terá levantado a taça, alguém terá chorado, e o mundo terá se dividido outra vez entre os que venceram e os que perderão. Mas, em algum bar de qualquer cidade-sede, como Los Angeles, Cidade do México ou Toronto, um garçom colocará sobre uma mesa uma xícara de café especial, e tudo aquilo que parecia urgente e decisivo irá, por um momento, se dissolver na sua fragrância.

O café, ao contrário do futebol, não tem lado. Ele pertence a quem o aprecia. E o mundo, quando desacelera para tomar um café de verdade, é capaz de se entender.

Isso, ao menos, é o que eu acredito. Sempre acreditei. Antes do primeiro gol e depois do último apito.

CNN Brasil
https://www.cnnbrasil.com.br/viagemegastronomia/gastronomia/o-mundo-em-uma-xicara-edicao-especial-copa-do-mundo-2026/?darkmode=false