Randolfe Rodrigues e Davi Alcolumbre | Foto: Carlos Moura - Agência Senado |
Alcolumbre: 'Lula envia, eu pauto'

Alcolumbre: 'Lula envia, eu pauto'

''O presidente decide quando e quem ele indicará, mas é o Senado que decide se e quando será aprovado. Ele envia, eu pauto e o Senado vota.''

Foi essa a reação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), ao saber que o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), declarou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) irá indicar um novo nome para ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Ou seja, se o próximo indicado para ministro do STF não for antecipadamente negociado com o Congresso, repete-se o enredo do advogado-geral da União, Jorge Messias: Alcolumbre demora a pautar a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e, depois, como ocorreu nesta quarta-feira, 29, o plenário, derruba o nome.

O recado dado por Davi Alcolumbre parece óbvio, mas não foi seguido pelos articuladores políticos do governo: há atribuições do Executivo e do Legislativo na nomeação de ministros do STF e a responsabilidade tem que ser compartilhada.

Davi Alcolumbre havia indicado para Lula o senador mineiro Rodrigo Pacheco (ex-PSD, hoje PSB). Mas foi ignorado. O presidente precisava de Pacheco como candidato a governador para montar um palanque em Minas Gerais em defesa de sua reeleição. Resolveu não acolher a indicação de Alcolumbre e enviou ao Congresso o nome de Messias, que havia sido assessor do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-AL).

Só esqueceram de combinar com Alcolumbre, que se sentiu atropelado e reagiu declarando guerra: "Vocês me traíram", disse a Wagner quando se encontram no plenário. Ficaram quase sem se falar. Só voltaram a trocar palavras recentemente. Mas nem Wagner, nem o presidente da República deram ao episódio a dimensão que deviam dar.

Foi mantida a indicação de Messias sem uma conversa às claras entre Lula e Alcolumbre, o que deixou o presidente do Senado convencido de que precisava impor uma derrota ao governo para que indicações futuras sejam negociadas antes de serem apresentadas publicamente.

Não agradaram a Alcolumbre e ao centrão as indicações anteriores de Lula. Cristiano Zanin, não foi considerado uma boa escolha porque era advogado pessoal do presidente. E Flávio Dino, porque, embora reconhecido como excelente jurista, se trata de um político marcadamente de esquerda que tem impedido as manobras do centrão na distribuição de emendas parlamentares.

Já havia uma insatisfação com os demais integrantes do Supremo. Tão grande que parte do centrão se aliou aos bolsonaristas na defesa de limitações aos ministros, como corte de benefícios e apoio a pedidos de impeachment.

Nada disso foi levado em conta. Alcolumbre, por seu lado, fingiu-se de vencido para pegar o governo de surpresa. E pegou. Agora que o cristal quebrou, o jeito talvez seja mandar um novo nome ao Congresso e juntar os caquinhos.

Correio da Manhã
https://www.correiodamanha.com.br/colunistas/tales-faria/2026/05/282131-alcolumbre-lula-envia-eu-pauto.html