- Não há um único responsável; usuários, plataformas: todos participam, em alguma medida, do sistema que alimentam
- O maior risco do nosso tempo não é o colapso repentino; é a banalização da violência travestida de entretenimento
Maria Paula
Atriz, autora, psicanalista com mestrado em saúde mental (UnB) e embaixadora da paz
Na semana em que, pela primeira vez, big techs como Meta e Google foram responsabilizadas pelo modelo perverso de design de suas plataformas, há algo de profundamente paradoxal se revelando.
Rolagem infinito, autoplay e outros artifícios não são neutros. São escolhas. Estratégias deliberadas para capturar atenção e prolongar permanência, muitas vezes à custa da saúde mental de adultos, jovens e crianças.
E, ainda assim, enquanto esse modelo começa a ser juridicamente questionado, uma contradição se impõe: somos, talvez, a geração que mais avançou na capacidade de acolher -e, ao mesmo tempo, a que mais se habituou a assistir à dor alheia.
Se olharmos com honestidade, veremos conquistas reais. A deficiência já não é tratada com a brutalidade explícita de outras épocas. Construímos rampas, políticas públicas, mas também linguagem e sensibilidade. O outro passou a ser visto com mais dignidade. Isso é civilização.
Mas, enquanto refinamos nossa empatia em certos territórios, abrimos outros, silenciosamente, para a banalização da crueldade.
A tecnologia, que poderia nos aproximar, também amplifica nossa tolerância ao sofrimento transformado em espetáculo.
Se antes o Coliseu de Roma organizava a dor em arena física, hoje criamos um Coliseu difuso, digital e escalável. A dor virou conteúdo. O sofrimento virou ativo. E nós, muitas vezes, plateia.
O fenômeno das apostas escancara esse deslocamento. Já não se aposta apenas em jogos esportivos.
Aposta-se no tempo de uma coletiva, no gesto de uma autoridade, na imprevisibilidade do real. Em um episódio recente, uma autoridade americana encerrou sua fala segundos antes do limite previsto em apostas online.
A logica da perversidade avança quando a realidade começa a performar para o jogo.
E o que parecia curioso torna-se perturbador. Em meio à escalada de tensões globais, surgem apostas sobre operações militares e até sobre a morte de lideranças políticas, movimentando cifras bilionárias.
Aqui, o dilema deixa de ser tecnológico e passa a ser ético. O que acontece com uma sociedade que transforma a possibilidade de morte em ativo financeiro?
É nesse ponto que emerge um conceito central do nosso tempo: a responsabilidade difusa.
Não há mais um único responsável. Usuário, plataforma, investidor, algoritmo -todos participam, em alguma medida, do sistema que alimentam.
A responsabilidade já não é localizada. É distribuída. E isso exige um novo tipo de regulação. Não apenas jurídica, mas civilizatória. Regular não é censurar. É reconhecer que nem tudo que pode ser feito deve ser feito. Que o avanço tecnológico precisa ser acompanhado por maturidade ética. Caso contrário, o poder cresce mais rápido que a consciência -e a história já nos mostrou onde isso leva.
O maior risco do nosso tempo não é o colapso repentino. É a normalização. A banalização da violência travestida de entretenimento. A indiferença elegante diante do sofrimento.
Talvez ainda haja tempo de recalibrar. Mas isso começa por um gesto simples -e cada vez mais raro: assumir que o outro é nosso espelho. Protegê-lo é proteger o humano em nós.
Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/amp/opiniao/2026/04/responsabilidade-difusa.shtml





