Ministro enfrentou 'fogo amigo' e crises na Fazenda, mas se reinventou ao emplacar vitrines de Lula e virar aposta em São Paulo
Por Thomas Traumann
A política é a única atividade em que se pode ressuscitar sem precisar morrer antes. Em três anos e três meses como ministro da Fazenda do terceiro governo Lula, Fernando Haddad morreu e reviveu meia dúzia de vezes. Foi torpedeado por outros ministros, abandonado pelo Congresso e viu seu sobrenome transformado em "Taxad", numa chacota com a alta dos impostos. Ao mesmo tempo, ajudou a aprovar a ambiciosa reforma tributária, tirou do papel a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais e comandou o crescimento do PIB por três anos seguidos, os maiores feitos de Lula 3. Na quinta-feira, depois de meses de suspense, Haddad anunciou que será novamente candidato do PT ao governo de São Paulo. Com chances reduzidas de vitória, o criticado Haddad se transformou, ironicamente, na principal cartada para Lula conseguir no estado de São Paulo os votos necessários para um Lula 4.
Haddad não era a primeira opção de Luiz Inácio Lula da Silva para ministro da Fazenda quando eles conversaram em novembro de 2022, em Sharm El Sheikh, cidade egípcia que sediou a Conferência de Meio Ambiente da ONU. Sem se fixar num nome, o então presidente eleito chegou a pensar no senador Jaques Wagner. Mas Haddad tinha um plano. Ele enumerou a Lula as várias renúncias fiscais obtidas por grupos econômicos ao longo dos governos Dilma, Temer e Bolsonaro e como esses recursos poderiam bancar a concretização da promessa eleitoral de "botar o pobre no orçamento e o rico no Imposto de Renda". Haddad saiu da conversa como ministro.
"Haddad tem um plano" foi a frase mais repetida nas entrevistas com seus agora ex-auxiliares.
A relação entre o presidente e o ministro, contudo, começou ruim e teve pontos mais baixos do que altos. Ainda antes da posse, Lula desautorizou a decisão da Fazenda de repor os impostos federais sobre combustíveis, e permitiu que o adiamento fosse anunciado pela então presidente do PT, Gleisi Hoffmann. Em janeiro, sem combinar previamente com Haddad, Lula disse à repórter Natuza Nery, da GloboNews, que a autonomia do Banco Central era "uma bobagem" e que a redução da meta de inflação "só obriga (o governo) a arrochar mais a economia". O mercado financeiro, que nunca gostou de Lula, passou a considerar Haddad um pato manco.
Em 2018, publiquei o livro "O Pior Emprego do Mundo", sobre a delicada relação entre ministros da Fazenda e presidentes. Recontando essas conexões desde Delfim Netto com Costa e Silva em 1967, até Henrique Meirelles com Michel Temer em 2018, concluí que o ministro da Fazenda vive sob a pressão diária de ser demitido se não trouxer respostas positivas para índices como os da inflação, desemprego, crescimento, dívida externa, déficit e juros. O presidente, em compensação, só se preocupa com um número, o da sua popularidade. A relação de Lula com Haddad serve como livro-texto da tese.
Sem a garantia de ter 100% do apoio do presidente, Haddad montou no Ministério da Fazenda uma equipe da sua absoluta confiança, como Dario Durigan, Rogério Ceron, Marcos Pinto, Robinson Barreirinhas e Laio Morais. "A gente entrou já com desconfiança da direita e sabotagem da esquerda", lembra um dos principais auxiliares de Haddad. Por várias vezes ao longo do mandato, Haddad precisou de ajuda de ex-ministros como Aloizio Mercadante, Guido Mantega e Jacques Wagner para convencer Lula de suas ideias.
Em outubro de 2023, quando Haddad colecionava vitórias como a aprovação da reforma tributária do consumo, Lula desautorizou publicamente o fim do déficit fiscal, a principal promessa da Fazenda para o mercado financeiro. "Eu sei da disposição do Haddad, mas vou dizer para vocês que nós dificilmente chegaremos à meta zero (de déficit público). Se o Brasil tiver um déficit de 0,5%, o que que é? De 0,25%, o que é? Nada. Eu não vou estabelecer uma meta fiscal que me obrigue a começar o ano fazendo corte de bilhões nas obras que são prioritárias", afirmou Lula.
Embate interno
Em dezembro, durante encontro nacional do PT, Gleisi Hoffmann chamou a política econômica de Haddad de "austericida" por ter imposto um limite aos gastos públicos. Lula ficou neutro na disputa.Os ataques da esquerda do PT geravam sentimentos contraditórios no mercado financeiro. A Faria Lima havia se divertido distribuindo memes com Haddad como "Taxad", depois que ele baixou a taxa das blusinhas chinesas. Porém, sob o ponto vista do mercado, a opção de Lula a Haddad seria pior.
No segundo semestre de 2024, o mercado se estressava com a substituição do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, por Gabriel Galípolo, ex-número 2 da Fazenda. Lula inicialmente topou um pacote ajuste fiscal, mas quando a Fazenda propôs mexer no índice de reajuste do salário mínimo e na fórmula dos gastos mínimos com saúde e educação, ele estrilou. Depois de dois meses de debates diários, Lula aceitou um pacote mínimo de ajuste, mas somente se acompanhado do anúncio da isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, que Haddad planejava divulgar em meados de 2025.
Os dois tiveram uma conversa tensa. O ministro alertou que a reação do mercado seria péssima. Lula disse que seu subordinado não entendia de política. Em duas semanas, o dólar saltou de R$ 5,70 para R$ 6,30 e só voltou depois que o Banco Central torrou R$ 20 bilhões de reservas internacionais para controlar o câmbio. A taxa Selic que estava em 11,25% ao ano chegou meses depois a 15%, maior índice em vinte anos. Lula e Haddad ficaram mais três meses sem se falar a sós.
Em 16 de fevereiro de 2025, enquanto Haddad estava em missão oficial na Arábia Saudita, Lula promoveu uma reunião com cinco ministros e dois líderes do PT na Granja do Torto para discutir a queda na popularidade com a crise do Pix, o rumor instigado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) de que o governo pretendia taxar as transações financeiras. O ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira, mostrou pesquisas indicando que as causas para a queda da popularidade eram a alta dos preços dos alimentos, a taxa das blusinhas e o boato do Pix, todos temas da área econômica.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu a saída de Haddad, em tabelinha com o chefe da Casa Civil, Rui Costa. Lula não aceitou a proposta, mas também não defendeu seu ministro da Fazenda. A medida de fiscalização da Receita sobre o Pix, origem do rumor de taxação, foi cancelada.
Quando finalmente Lula e Haddad voltaram a conversar, no fim de março de 2025, o ministro conseguiu que Lula aceitasse um aumento de impostos para tapar as despesas. Como a Fazenda sabia que o Congresso não iria aprovar uma nova taxa, decidiu-se aumentar a arrecadação via Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que não precisa de aprovação do Legislativo. A reação dos bancos, financeiras e comércio varejista foi tão gigante, que o Congresso considerou o novo IOF ilegal.
O Ministério da Fazenda estava sob cerco e alguns assessores conversaram sobre deixar o barco. Refugiado num restaurante simples na Vila Planalto, em Brasília, o núcleo duro da Fazenda se lamentava quando Haddad disse que a marca da sua gestão era ter enfrentado os lobbies das empresas de apostas, das fintechs e dos milionários que pagam pouco imposto. O marqueteiro do PT, Otávio Antunes, transformou a ideia na campanha da Taxação BBB: bilionários, bancos e bets. Foi a virada.
Produzida com uso de inteligência artificial, a campanha do PT do "nós contra eles" foi a primeira vitória da esquerda no campo digital. Pressionado pelos ataques nas redes sociais, o Congresso não reagiu quando o STF deu ganho de causa ao governo na cobrança do IOF e depois aprovou por unanimidade a proposta de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, com cobrança de um imposto mínimo sobre os mais ricos como queria Haddad. De patinho feio, Haddad havia dado ao governo Lula uma espinha dorsal.
Balanço do mercado
O tom mais político de Haddad coincidiu com o rompimento das suas pontes com o mercado. Para a imensa maioria da Faria Lima, a gestão Haddad foi leniente com a dívida pública - que segundo os dados do Banco Central subiu para 78,7% do PIB - e priorizou o aumento da carga tributária, que chegou ao recorde histórico de 34,1% do PIB.- O Haddad é sobretudo um político e um político com pretensões eleitorais fortes e de um presidente que não tem o menor apreço pelo fiscal - critica o pesquisador do Insper Marcos Mendes, ex-secretário do Ministério da Fazenda no governo Temer. - Essa falta de convicção é o cerne do problema. O arcabouço fiscal que ele criou é cheio de exceções. Eles acham que fazem equilíbrio fiscal pelo lado da receita, sem cortes de gastos.
Prestigiado, Haddad começou a falar em sair. Considerava que não tinha mais dívidas com Lula ou o PT, e recebeu convites para lecionar no exterior. A relação de Haddad com o presidente mistura admiração mútua e amor filial, mas também doses de cobrança e ressentimento.
A ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, derrubando o favoritismo da reeleição de Lula, obrigou Haddad a ceder às necessidades eleitorais do PT. Quatro anos atrás, Lula só venceu Jair Bolsonaro porque Haddad teve o melhor desempenho de um petista no estado de São Paulo. Agora, Haddad enfrenta o favoritismo do governador Tarcísio de Freitas, mas a sua missão real é ajudar Lula a perder de pouco num estado francamente oposicionista. Haddad vai aproveitar a campanha para defender seu legado como ministro - e quem sabe - se posicionar para o pós-Lula. Como diriam seus assessores, Haddad tem um plano.
As idas e vindas do ministro na Fazenda
- Ataques do PT - No início do de governo, a política econômica de Haddad foi chamada por Gleisi, então presidente do PT, de "austericida" por ter imposto um limite aos gastos públicos. Lula ficou neutro.
- Memes com Taxad - Haddad centralizou os ataques às decisões tributárias do governo nas redes. A "taxação das blusinhas" e a aprovação da regulamentação da reforma tributária levou a uma onda de memes.
- Novo IOF - O aumento do imposto levou a uma queda de braço com o Congresso e a uma reação no mercado, mas levou a um alinhamento no governo em favor do discurso de justiça tributária.
- Isenção do IR - A aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, com cobrança de um imposto mínimo sobre os mais ricos, virou uma das principais apostas eleitorais de Lula 3.
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/03/22/de-austericida-e-taxad-a-cartada-do-pt-a-virada-de-haddad-para-a-pre-candidatura-ao-governo-de-sao-paulo.ghtml





