Fabio Nazari, do BTG: investidores estrangeiros de qualidade olhando para Brasil - Foto: Ana Paula Paiva/Valor |
Após quatro anos, bolsa brasileira retoma IPOs

Após quatro anos, bolsa brasileira retoma IPOs

Primeira abertura de capital deve ser da Compass, do grupo Cosan; companhias de saneamento serão as próximas


Por Fernanda Guimarães - De São Paulo

A entressafra de aberturas de capital na bolsa brasileira deverá ser encerrada ainda neste mês, depois de mais de quatro anos de jejum de ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) no mercado local. A despeito da volatilidade global, que escalou com a guerra no Irã, as empresas que devem reabrir a janela de captação na B3Cotação de B3, todas do setor de infraestrutura, seguem em conversas preliminares com investidores e querem garantir a realização das operações ainda no primeiro semestre do ano.

A visão não é de grande otimismo dado o contexto global e ainda no Brasil, com eleições presidenciais, um calendário que costuma afastar emissores, mas sim de que após um período prolongado sem ofertas os recursos que entraram na bolsa vão ajudar na retomada com alguns IPOs. Os olhares também estão voltados para o ritmo da queda de juros no país.

No início do ano, PicPay e Agibank abriram capital nos Estados Unidos, mas agora a atenção se volta para as operações na B3Cotação de B3. A Compass, empresa de gás e energia do grupo Cosan, caminha para trazer a oferta abre-alas, que pode somar entre R$ 4 bilhões e R$ 6 bilhões, que vai ajudar no processo de desalavancagem do conglomerado de Rubens Ometto. A companhia já saiu na frente e fez seu pedido de oferta junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o lançamento da oferta pode ocorrer ainda nesta semana, de forma a precificar a oferta no fim de março, apurou o Valor.

Dentre outras empresas que já estão em conversas adiantadas, também com atenção à janela de abril e maio está a Aegea, do setor de saneamento, que também desponta como um nome para reabrir o mercado. A BRK, outra forte candidata, ainda negocia seu "valuation", mas segue com seus preparativos mirando um IPO neste ano. A leitura é que as empresas têm porte suficiente para fazer uma oferta grande para atrair investidores estrangeiros, que tem como premissa a liquidez em seus portfólios.

"A novidade é que existe uma presença de estrangeiros relevantes, concentrada em hedge funds e 'long only' de médio porte. Já nos [fundos] de grande porte o tema da liquidez é algo relevante para a entrada. Então, ofertas de players de infraestrutura, seja follow-on ou IPO, com liquidez relevante podem ser situações que esses investidores estejam presentes", afirma o chefe do banco de investimento do Itaú BBA, Cristiano Guimarães.

Fabio Nazari, sócio do BTG Pactual e responsável pela área de renda variável, diz que a guerra no Irã trouxe volatilidade ao mercado, mas que o apetite do investidor estrangeiro segue intacto. "Estamos em um excelente momento, como há anos não víamos, com investidores estrangeiros de qualidade olhando Brasil", destaca.

Entre as ofertas subsequentes ("follow-ons"), o ano começou fraco mesmo com o forte fluxo de estrangeiros na bolsa levando o Ibovespa a recordes, algo que foi interrompido com a volatilidade trazida com a Guerra no Irã. Até aqui na B3Cotação de B3 apenas a Moura Dubeux, do setor de construção, e o Banco Pine foram a mercado - o primeiro levantando R$ 500 milhões e o segundo com uma oferta de R$ 245,9 milhões. O Pine teve sua ação precificada em dia de escalada da tensão no Oriente Médio, o que fez com que a instituição financeira não vendesse o lote adicional da oferta. Na semana passada precificou oferta a rede de farmácias Pague Menos, que movimentou R$ 458 milhões, e também não vendeu o lote adicional diante da volatilidade dos mercados. Riachuelo e banco Mercantil devem ser os próximos a lançarem as transações.

A maior oferta subsequente do ano deve vir com a privatização da Copasa, que pode girar cerca de R$ 10 bilhões. A empresa também tem projeção de atrair estrangeiros, dado seu tamanho e pelo setor, atrativo ao olhar desses investidores. Estão olhando a possibilidade de uma oferta, conforme fontes, Energisa e Engie.

A novidade é que existe uma presença de estrangeiros relevantes, concentrada em hedge funds"
- Cristiano Guimarães

Outras empresas que colocaram na mesa uma oferta de ações acabaram optando por outra estratégia. O BMG preferiu fazer um aumento de capital privado, assim como a Simpar, ao passo que acionistas da rede de farmácias Panvel escolheram realizar uma venda de ações por bloco em bolsa.

O responsável pela área de renda variável do Bradesco BBI, George Costa e Silva, afirma que apesar da recente volatilidade, os fatores positivos que apontam para retomada do mercado de renda variável são preponderantes, com a expectativa de queda de juros no Brasil e o fluxo de capital de fora. "Esses fatores se mantêm" destaca. Segundo o executivo, a possibilidade da reabertura vir de uma empresa de infraestrutura se deve ao fato dessas companhias serem grandes e aptas a realizarem ofertas bilionárias capazes de atrair o fluxo de fundos estrangeiros.

Hans Lin, corresponsável pelo banco de investimento do Bank of America no Brasil, destaca que o momento é de volatilidade, mas que o pano de fundo, de entrada de fluxo estrangeiro nos mercados emergentes e início de queda de juros no Brasil, fazem com que as conversas estejam mais engajadas. Ele aponta que as operações que reabrirão mercado terão necessariamente que ter liquidez, com uma empresa de valor de mercado de ao menos R$ 10 bilhões e uma oferta de ao menos R$ 2 bilhões, para ser capaz de atrair os estrangeiros. Fora isso, a visão é que companhias de setores mais defensivos, como infraestrutura, e com crescimento serão as protagonistas neste momento.

Chefe do banco de investimento do Bradesco BBI, Andre Moor diz que a percepção é de mais otimismo para o mercado de capitais brasileiro. A mensagem que tem sido passada às empresas, afirma ele, é aproveitar a atual janela para captar, evitando o segundo semestre, que tende a ser mais volátil por conta das eleições.

Fabio Federici, responsável pela área de renda variável do Goldman Sachs no Brasil, diz que o mercado está no momento aberto, mas aponta que a atual volatilidade "pode causar maior seletividade por parte dos investidores". "Vamos ver aquelas que vão aproveitar e fazer agora [a oferta]. Tem fluxo e apetite", afirma.

Procurada, a Aegea disse que um "eventual IPO é uma possibilidade sempre avaliada". Frisou, ainda em nota, que "a gestão da estrutura de capital é parte relevante da estratégia da companhia, e o acesso ao mercado público de ações é uma das alternativas em análise". A Energisa afirmou que não comenta por ser uma "empresa de capital aberto, em conformidade à nossa governança."

Valor
https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/03/18/apos-quatro-anos-bolsa-brasileira-retoma-ipos.ghtml