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Nova sede do governo no centro vai desapropriar centenas de imóveis

Nova sede do governo no centro vai desapropriar centenas de imóveis

Moradora diz que não houve diálogo do governo com famílias. Tarcísio afirma que R$ 500 milhões serão usados para indenizar população


Jessica Bernardo

O projeto da nova sede do governo no centro de São Paulo vai retirar centenas de famílias do entorno do Parque Princesa Isabel. A etapa de desapropriações é a primeira do projeto e deve ter início já nos próximos meses.

Na manhã desta quinta-feira (26/2), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse que 600 famílias precisarão deixar suas casas. Por telefone, a assessoria de imprensa da Secretaria de Parcerias e Investimentos (SPI) corrigiu o número para 300.

Independentemente da quantidade final, a fase de desapropriações já é um dos pontos mais sensíveis do projeto. Como mostrou o Metrópoles, moradores do centro foram pegos de surpresa com o anúncio de que terão de deixar suas casas e alegam que não houve diálogo entre o governo e eles (relembre aqui).

Nesta quinta, uma das moradoras afetadas pela obra foi até a sede da B3 durante o leilão (leia mais abaixo) que definiu o consórcio responsável pelo projeto, nesta quinta (26/2), e abordou Tarcísio. "A gente está há mais tempo no centro do que você na cadeira de governador", disse a mulher, que alegou não ter sido ouvida no processo de discussão da obra.

Ela afirmou que o valor indenizatório que será oferecido pelo governo é insuficiente para que a população consiga comprar outro imóvel no centro. À imprensa, Tarcísio disse que as desapropriações fazem parte dos projetos de "grande porte" e que o governo não irá reverter sua decisão por causa do impacto causado a essas famílias.

"Não é a primeira vez que a gente vai ter desapropriação e não será a última. [.] Existe um valor já reservado para essas desapropriações e nós vamos fazer isso da melhor forma possível. Isso é sempre assistido e mediado pelo judiciário e acompanhado pelo Ministério Público".
O governador disse que sua gestão fez uma "reserva de R$ 500 milhões para desapropriações". "O que não significa que a gente, eventualmente, não possa usar mais recursos", afirmou.

A construção da nova sede administrativa prevê a demolição de edifícios do centro para abrir espaço aos novos prédios que serão erguidos no local. Para isso, cinco quadras do bairro Campos Elíseos foram declaradas como de "utilidade pública" no fim de março de 2024.

Entre os imóveis que serão desapropriados estão prédios residenciais, comércios e pensões. Diretor da M4 Infraestrutura, uma das empresas que compõem o consórcio MEZ-RZK Novo Centro, Felipe Mahana disse que a construção da nova sede pode ter o cronograma impactado a depender de quanto tempo levarem as desapropriações.

"A gente depende da desapropriação", disse o executivo, que alegou que fará a obra por etapas para manter os avanços dentro do prazo. "A nossa ideia é tocar a estrutura por quadras, não o negócio como um todo, porque eu não vou ficar esperando liberar todas as quadras para liberar a primeira obra".
A ideia do consórcio é que as primeiras intervenções comecem já no próximo ano.

"Maior transformação urbana"

O consórcio MEZ-RZK Novo Centro, formado pelas empresas Zetta Infraestrutura, M4 Investimentos, Engemat, RKZ e Iron Property, será o responsável por construir e gerir a nova sede administrativa do governo de São Paulo.

As empresas participaram do leilão do edital e apresentaram a proposta com o menor valor para a chamada contraprestação, que é a verba paga pelo governo estadual mensalmente para o responsável pela gestão do espaço.

O valor máximo de contraprestação que poderia ser cobrado pelos consórcios era de R$ 76,6 milhões por mês. O grupo vencedor ofereceu desconto de 9,62% sobre esse valor e aceitou receber mensalmente R$ 69,2 milhões.

Além da contraprestação, que será paga por cerca de 25 anos, o governo de São Paulo vai investir R$ 3,4 bilhões na etapa de obras. No total, o custo do estado com o projeto deve, assim, superar os R$ 24 bilhões.

A futura concessionária colocará R$ 2,7 bilhões nas obras por meio de uma parceria público-privada (PPP), e arcará com os custos de manutenção e operação do complexo, como a contratação de equipes de limpeza e segurança.

Tarcísio disse que o projeto será a "maior transformação urbana da cidade" desde a reforma do Vale do Anhangabaú, no centro da capital paulista.

"Faltava um investimento icônico [para o governo]. Um investimento que vai promover a maior transformação urbana que a gente vai ver na cidade pós-Anhangabaú. Que é essa transformação do centro administrativo de São Paulo", disse Tarcísio.
O governador defendeu que a reforma vai qualificar a região e profetizou que "nunca mais o centro ficará degradado como ficou".

O dono da obra

Tarcísio anunciou no leilão que enviará um projeto à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para que o complexo da nova sede do governo receba o nome de Silvia Maria Dellivenneri Domingos.

Silvia era casada com Guilherme Afif Domingos, secretário estadual de Projetos Estratégicos, e morreu em 2024. Afif é o maior entusiasta do projeto da nova sede e é reconhecido dentro do governo como "o grande responsável pela obra.

Ex-vice-governador do estado durante um das gestões de Geraldo Alckmin (PSB), ele tentou vender a ideia do projeto à época para o hoje vice-presidente da República. Nesta quinta, o secretário alfinetou o antigo companheiro de chapa.

"Nós tínhamos apresentado uma ideia há 12 anos. E o que faltou naquela época? Coragem de um governante que assumisse", afirmou.

Como mostrou o Metrópoles, ideias e obras herdadas de Alckmin serão usadas por Tarcísio como trunfos eleitorais em 2026.

Metropoles
https://www.metropoles.com/sao-paulo/nova-sede-do-governo-no-centro-vai-desapropriar-centenas-de-imoveis