O problema do vinho caro no Brasil não está na fronteira, mas no sistema tributário - Foto: WOKANDAPIX/Pixabay |
Jorge Lucki: Como resolver o problema do vinho caro no Brasil

Jorge Lucki: Como resolver o problema do vinho caro no Brasil

Um Imposto de Importação menor não vai mudar dramaticamente o preço dos vinhos europeus


Por Jorge Lucki - para o Valor

De volta à coluna após o recesso, é inevitável comentar alguns movimentos que vêm redesenhando o cenário do vinho no mundo - e que, a meu ver, merecem uma leitura menos apressada do que a que costuma prevalecer.

O primeiro deles é a queda do consumo em mercados historicamente centrais, como França, Inglaterra e Estados Unidos. A explicação mais recorrente aponta para a mudança de hábitos das novas gerações, que de fato bebem menos álcool. Mais do que uma simples opção pela moderação, trata-se de uma transformação cultural mais ampla: uma geração marcada por relações menos estáveis, por rotinas fragmentadas, pela valorização do bem-estar individual e por uma sociabilidade cada vez mais mediada por telas, em que os rituais coletivos - como a refeição compartilhada - perderam importância e não fazem parte do cotidiano.

A questão, assim, é mais profunda. O vinho é, por natureza, uma bebida associada à mesa e ao compartilhamento. Não é casual que o consumo mundial tenha crescido durante a pandemia: confinadas, as famílias voltaram a se reunir em torno das refeições - e, nessas ocasiões, a bebida escolhida foi o vinho.

Outro tema incontornável é a recente recomendação da OMS de que qualquer bebida alcoólica é cancerígena, independentemente da quantidade ingerida. Embora o alerta seja amplo (o tema foi assunto central do segundo dia do Symposium da AIV em dezembro passado, e vou trazer alguns tópicos em colunas futuras), o vinho acabou sendo particularmente atingido em sua imagem, abrindo espaço para categorias como os chamados "vinhos sem álcool" - denominação que, a rigor, considero imprópria (arranjem outro nome para essa bebida, porque isso não é "vinho") - e para bebidas derivadas da cannabis.

No caso específico do que é chamado "vinhos desalcoolizados", chama atenção o paradoxo: produzir um vinho para depois retirar-lhe o álcool exige processos tecnologicamente complexos e de altíssimo consumo energético, o que vai na contramão de qualquer discurso sério sobre sustentabilidade e responsabilidade ambiental.

Antes de avançar para outros assuntos, vale aprofundar um pouco mais essa questão da queda no consumo, que é menos homogênea do que muitas análises apressadas sugerem. Um artigo publicado na edição de outubro da Revue du Vin de France chama atenção não apenas para a retração do consumo interno francês, mas também para a queda significativa das exportações para mercados estratégicos como China e Inglaterra - num cenário em que a Borgonha, curiosamente, segue relativamente preservada.

O texto aponta ainda fatores que extrapolam o comportamento do consumidor: tensões geopolíticas, a guerra na Ucrânia e a crise energética provocaram rupturas na cadeia global de suprimentos, elevando rapidamente os custos de produção e distribuição. Esse aumento de preços foi agravado por safras menores, consequência direta das mudanças climáticas, além das pressões inflacionárias globais e da perda de poder de compra.

O mesmo artigo, porém, ressalta movimentos que vão na contramão dessa tendência. Espanha e Portugal registram leve aumento no consumo, impulsionado sobretudo pelo turismo, mas é fora da Europa que surgem os sinais mais consistentes de crescimento. A RVF destaca, em particular, Rússia e Brasil.

No caso brasileiro, a projeção é de um crescimento médio de 5% ao ano até 2030, o que levaria o país a se consolidar como um mercado estratégico para produtores internacionais. A ascensão de uma classe média alta, mais viajada, conectada às redes sociais e com maior familiaridade com vinhos finos, aliada à mudança na pirâmide etária, ajuda a explicar esse movimento.

Estima-se (a RVF) hoje em cerca de 44 milhões o número de apreciadores de vinho no país - um perfil cada vez mais visível não apenas no mercado interno, mas também em hotéis de luxo parisienses e nas estações de esqui dos Alpes, onde a presença e a desenvoltura dos consumidores brasileiros não passam despercebidas.

Esse contraste entre retração em mercados tradicionais e avanço em países como o Brasil ajuda a explicar por que o país passou a ocupar um lugar central no radar dos produtores europeus. É nesse contexto que ganha relevo o debate em torno do eventual acordo entre a União Europeia e o Mercosul, frequentemente apresentado como um divisor de águas para o preço dos vinhos importados no mercado brasileiro - embora essa leitura, como quase sempre, simplifique em excesso uma equação bem mais complexa.

Muito se fala, de fato, no potencial impacto do acordo sobre o preço dos vinhos europeus no Brasil, mas pouco se discute o essencial. O que está previsto - e ainda de forma escalonada ao longo de vários anos - é a redução do Imposto de Importação, hoje em torno de 27% para os vinhos da União Europeia.

Trata-se, portanto, de apenas um componente da estrutura de custos. Permanecem intactos os tributos internos - ICMS, PIS, Cofins e IPI - que incidem de forma cumulativa e em cascata, respondendo pela maior parcela do preço final pago pelo consumidor.

De forma simplificada, e considerando a média das operações no mercado brasileiro, o Imposto de Importação costuma representar perto de 10% do preço final de uma garrafa. Já a soma dos impostos internos pode facilmente ultrapassar 40% - e, em muitos casos, alcançar ou superar 50% do valor ao consumidor.

A prova empírica está nos vinhos chilenos e argentinos, que entram no Brasil com imposto de importação zerado e, ainda assim, são vendidos por cerca de três vezes o preço praticado em seus países de origem.

O mesmo raciocínio vale para o vinho nacional: mais da metade do preço de uma garrafa produzida no Brasil corresponde a impostos, o que desmonta o argumento recorrente de que essa carga elevada serviria como instrumento efetivo de proteção ao produtor local.

Fica claro, portanto, que o problema do vinho caro no Brasil não está na fronteira, mas dentro do próprio sistema tributário. Mesmo que o imposto de importação europeu fosse zerado de forma imediata, o impacto no preço final até seria perceptível, porém longe de revolucionário. Sem uma revisão estrutural dessa carga, o acordo com a União Europeia pode até melhorar margens e permitir ajustes pontuais de preço, mas está longe de representar uma mudança real no acesso do consumidor brasileiro ao vinho.

Jorge Lucki escreve neste espaço semanalmente. E-mail: Colaborador-jorge.lucki@valor.com.br

Valor
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