Uma investigação sobre fatos documentados, auditorias que nunca aconteceram, e as 12.000 toneladas que desapareceram dos cofres americanos
Bernardo Braga | Fevereiro 2026
Os Números Que Não Fecham
Em 1949, os Estados Unidos possuíam 20.663 toneladas de ouro. Quase 70% de todo o ouro monetário do planeta. Hoje, o Tesouro americano reporta 8.133,5 toneladas. Faltam mais de 12.000 toneladas.Para onde foram?
A resposta oficial é simples: vendas, resgates do sistema de Bretton Woods, operações de mercado. Tudo devidamente registrado e contabilizado. Até aí, tudo bem. O problema começa quando você tenta verificar.
Porque a última vez que alguém realmente verificou o ouro dos Estados Unidos, com ensaio químico e inventário completo, foi em 1953. E mesmo essa auditoria, como veremos, testou 0,00002% das barras.
De lá para cá, o governo perdeu sete relatórios de auditoria. Reclassificou o ouro como "deep storage". Substituiu auditorias reais por verificação de selos em portas de cofre. Avalia as reservas a US$42,22 por onça (quando o mercado paga US$5.000). E bloqueou, sem exceção, toda tentativa legislativa de auditoria independente.
Este artigo não vai propor nenhuma teoria. Vai apresentar fatos. Documentados, verificáveis, obtidos via FOIA, transcrições do Congresso, dados do Tesouro e investigações independentes. O que você faz com esses fatos é decisão sua.

A história dessas 12.000 toneladas é uma história de confisco, guerras monetárias, promessas quebradas, auditorias falsificadas, mercados manipulados e repatriações silenciosas. Vamos por capítulos.
O Confisco (1933-1934)
Tudo começa com um presidente confiscando o ouro dos próprios cidadãos.Em 5 de abril de 1933, Franklin Roosevelt assinou a Executive Order 6102, tornando ilegal a posse de ouro por cidadãos americanos. Todos foram obrigados a entregar seu ouro ao Federal Reserve ao preço fixo de US$20,67 por onça. A penalidade para quem não cumprisse: multa de US$10.000 (equivalente a US$243.000 em valores atuais) e até 10 anos de prisão.
Não foi uma sugestão. Foi uma ordem.
Um ano depois, em janeiro de 1934, Roosevelt assinou o Gold Reserve Act. Esse ato fez duas coisas. Primeiro, transferiu a propriedade de todo o ouro do Federal Reserve para o Tesouro dos Estados Unidos. Segundo, revalorizou o ouro de US$20,67 para US$35 por onça, uma valorização de 69,3%.
Leia de novo: o governo confiscou o ouro dos cidadãos a US$20,67. Depois, com o ouro já nos cofres, mudou o preço para US$35. O Tesouro lucrou aproximadamente US$2,8 bilhões da noite para o dia. Os cidadãos, proibidos de possuir ouro, foram os únicos que não se beneficiaram da revalorização.
A proibição durou 41 anos. Só foi revertida em dezembro de 1974.
O dinheiro do confisco criou o ESF. O Exchange Stabilization Fund, criado pelo Gold Reserve Act com os US$2,8 bilhões de lucro da revalorização, opera até hoje sob autoridade exclusiva do Secretário do Tesouro, sem supervisão do Congresso. Vamos voltar a ele mais adiante.
A Hemorragia (1961-1968)
O pico das reservas americanas foi em 1949: 20.663 toneladas, 69,9% de todo o ouro monetário do mundo. Em menos de duas décadas, quase metade evaporou.O problema era estrutural. Sob o sistema de Bretton Woods (1944), o dólar era conversível em ouro a US$35 por onça. Qualquer governo estrangeiro podia apresentar dólares ao Tesouro americano e sair com lingotes. Enquanto os EUA mantiveram superávits comerciais, o sistema funcionou. Quando começaram a gastar mais do que produziam (guerra do Vietnã, programas sociais), os dólares começaram a se acumular fora do país. E os governos começaram a trocar esses dólares por ouro.
O London Gold Pool
Em novembro de 1961, oito nações criaram o London Gold Pool para defender o preço de US$35 por onça no mercado livre. Os EUA contribuíam com 50% do pool. O Bank of England administrava as operações. A lógica era simples: sempre que o preço ameaçasse subir acima de US$35, o pool vendia ouro físico no mercado de Londres para derrubar o preço de volta.Os números contam a história:
- 1957: Reservas dos EUA em 20.312 toneladas
- 1958: Caem 10% em um único ano, para 18.290 toneladas
- Março de 1968: O pool perdeu quase 1.000 toneladas em uma semana. Em 8 de março, 100 toneladas foram vendidas em um único dia (o normal era 5 por dia)
- 14 de março: Os EUA pediram que Londres fechasse o mercado. A rainha declarou feriado bancário
- 17 de março de 1968: O London Gold Pool colapsou oficialmente
Resultado: entre 1957 e 1968, os EUA perderam aproximadamente 9.420 toneladas de ouro. Quase metade das reservas, em onze anos.
De Gaulle Esvazia os Bolsos
O presidente francês Charles de Gaulle, assessorado pelo economista Jacques Rueff, foi o mais vocal crítico do sistema. Em 4 de fevereiro de 1965, disse em coletiva de imprensa:"No sistema atual, os Estados Unidos podem se endividar gratuitamente, às custas de outros países, porque o que devem pelo comércio é pago, pelo menos em parte, com dólares que só eles podem criar."
Charles de Gaulle, 4 de fevereiro de 1965
A França executou a Operação Vide-Gousset ("Esvaziar os Bolsos"), repatriando 3.313 toneladas de ouro entre 1963 e 1966. Foram 94 voos de Londres a Paris (1.175 toneladas) e 24 viagens de navio combinadas com 35 voos dos EUA (1.638 toneladas).
Em junho de 1967, a França saiu do London Gold Pool. De Gaulle provou estar certo: entre 1968 e 1980, o dólar perdeu 96% do valor em relação ao ouro (de US$35 para US$800 por onça).
A Janela Se Fecha (1971)
Quando o ouro acabou, restou uma opção: mudar as regras do jogo.Em 13 de agosto de 1971, um sexta-feira, o presidente Richard Nixon reuniu-se secretamente em Camp David com Arthur Burns (presidente do Fed), John Connally (Secretário do Tesouro) e Paul Volcker (então subsecretário). O motivo da urgência: a Grã-Bretanha havia solicitado a conversão de US$3 bilhões em ouro.
Se os EUA honrassem o pedido britânico, seriam mais de 2.600 toneladas saindo dos cofres. As reservas já estavam em queda livre. Outros países fariam o mesmo. A corrida bancária contra Fort Knox seria terminal.
Dois dias depois, no domingo, Nixon apareceu na TV e declarou a suspensão "temporária" da conversibilidade do dólar em ouro.
A suspensão temporária completa 55 anos em 2026. Nunca foi revertida.
O que mudou em 1971: antes, o dólar era um recibo de ouro. Cada nota representava uma fração das reservas em Fort Knox. Depois de agosto de 1971, o dólar passou a valer... porque o governo diz que vale. A âncora física desapareceu. E com ela, qualquer limite real para a criação de moeda.
As "Auditorias" (1953-2026)
Se o ouro está lá, verificar deveria ser trivial. Abrir os cofres, contar as barras, testar o metal, publicar o resultado. Essa verificação completa nunca aconteceu.
1953: A Única "Auditoria"
Eisenhower ordenou a auditoria em questão de horas após tomar posse, depois de 20 anos de presidentes democratas. Segundo documentos obtidos via FOIA:- Duração: 7 dias
- Escopo: de 22 compartimentos com ouro, apenas 3 foram auditados
- Barras: dos aproximadamente 1.300.000 lingotes, 88.000 foram contados, 9.000 pesados, e 26 barras (0,00002%) ensaiadas quimicamente
- Independência: nenhum especialista externo participou. Os auditados definiram as regras da própria auditoria
- Competência: os burocratas envolvidos admitiram, por escrito, serem inexperientes
1974: O Tour Turístico
Em 23 de setembro de 1974, a diretora da Casa da Moeda, Mary Brooks, liderou 6 congressistas, 1 senador e aproximadamente 150 jornalistas em um tour por Fort Knox. De 13 compartimentos com ouro, apenas 1 foi aberto. A visita durou cerca de duas horas. As barras tinham tonalidade alaranjada (coin bars com aproximadamente 90% de ouro e 10% de cobre). Nenhum ensaio químico foi realizado.Não foi uma auditoria. Foi um tour de relações públicas.
Os Relatórios Perdidos
Koos Jansen, investigador da BullionStar, pediu via FOIA os relatórios de auditoria de 1993 a 2008. A resposta do governo: 7 relatórios haviam sido perdidos.O US Mint cobrou mais de US$3.000 para buscar os documentos restantes. Jansen arrecadou o valor via crowdfunding em menos de 24 horas. O governo nunca descontou o cheque.
Os documentos que foram liberados revelaram inadequações procedimentais, inconsistências e incompetência profissional. Mais grave: 1.700 toneladas foram misteriosamente "re-auditadas" em Fort Knox e Denver após revisão de procedimentos em 1983, sem explicação convincente. Em outro caso, um compartimento com 19.800 barras registrado como movido em 1996 foi verificado em 1998 sem referência à inspeção anterior, levantando a possibilidade de contagem dupla.

Deep Storage Gold: A Reclassificação
Em junho de 2001, o Tesouro reclassificou todas as reservas como "Deep Storage Gold". A partir daí, as "auditorias anuais" do Office of Inspector General passaram a consistir em verificar se os selos nas portas dos 42 compartimentos estão intactos. Não abrem os cofres. Não contam barras. Não testam o metal.Desde 1986, a "auditoria" anual dos Estados Unidos consiste em checar se alguém mexeu no cadeado.
O Truque da Avaliação
O ouro é contabilizado no balanço do governo a US$42,22 por onça desde 1973. O mercado paga US$5.000 por onça. A diferença:
Uma reserva de US$1,29 trilhão que existe no papel, avaliada como se estivéssemos em 1973.

As Barras: Abaixo do Padrão Internacional
Dados compilados por Ronan Manly (BullionStar) mostram que apenas 17% das barras são do padrão LBMA Good Delivery (pureza mínima 99,5%). Os outros 83%:A pureza média é de 916,7. A maior parte do ouro de Fort Knox não seria aceita no mercado internacional sem ser refinada primeiro. São "coin bars", resultado da fundição de moedas confiscadas em 1933. Barras alaranjadas (por causa do cobre), incompatíveis com o padrão de negociação de Londres.
Mnuchin e o Eclipse (2017)
Em 21 de agosto de 2017, Steven Mnuchin visitou Fort Knox. Foi o primeiro Secretário do Tesouro a fazê-lo em 69 anos. Após a visita, tweetou: "Glad gold is safe!"A visita não foi uma auditoria. Nenhuma barra foi testada, nenhum inventário foi feito. Curiosamente, a data coincidiu com o eclipse solar total de agosto de 2017. Mnuchin e a esposa assistiram ao eclipse do telhado de Fort Knox.
O Mercado de Papel
Se as reservas físicas são questionáveis, o mercado que determina o "preço" do ouro adiciona outra camada de complexidade.O Ratio de 100:1
Em 25 de março de 2010, numa audiência pública da CFTC sobre contratos futuros de metais, Jeffrey Christian (CPM Group) afirmou que a alavancagem típica de derivativos futuros versus ouro físico é de aproximadamente 100 para 1. O transcript oficial está disponível no site da CFTC.Christian comparou ouro a ativos financeiros como dólar e Treasuries, não a commodities como milho ou algodão. A implicação: o mercado opera com proporções de papel para físico drasticamente maiores que qualquer outra commodity. Para cada onça de ouro real, existem 100 onças de ouro de papel.
Na LBMA (London Bullion Market Association), 600 toneladas são compensadas por dia. Com proporção de 10:1 entre negociação e compensação, são 6.000 toneladas negociadas por dia, o equivalente a 1,5 milhão de toneladas por ano. A produção anual global de ouro? Aproximadamente 3.700 toneladas.
Greenspan Admite
Em 24 de julho de 1998, Alan Greenspan testemunhou perante o Congresso:"Central banks stand ready to lease gold in increasing quantities should the price rise."
Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, 24/07/1998
Bancos centrais prontos para emprestar ouro em quantidades crescentes caso o preço suba. A frase, registrada no transcript oficial do Congresso, confirma a existência de um mecanismo ativo de supressão de preço.
O Acordo de Washington sobre Ouro, assinado em setembro de 1999, revelou que o total de ouro emprestado (on lease) pelos bancos centrais europeus era de 2.119 toneladas, equivalente a 45% das reservas globais.
Até que isso aconteça, a pergunta permanece aberta.
Better Money
https://www.bettermoney.com.br/blog/fort-knox.html
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