Apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula
Julia Duailibi
Não tem Palocci 2, Posto Ipiranga ou carta branca para quem assumir a economia no Lula 4. Aviso aos navegantes que, apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula. Isso significa que o próximo governo não pretende fazer um "cavalo de pau na economia", nos moldes do que ocorreu em 2003, segundo definiu à época o então capitão do time, José Dirceu.
Lula quer fazer de Lula 4 algo mais impactante que Lula 3, mas a toada que desenha por enquanto é a mesma. Com exceção de uma ou outra medida de viés mais agressivo, a ideia é não mexer nos compromissos da campanha. Por isso Lula 4 não deve ser o que o mercado quer nem o que parte dos economistas vê como caminho obrigatório para interromper a trajetória de crescimento da relação dívida/PIB e levar à queda dos juros.
No momento, o ajuste em discussão prevê busca pelo centro da meta de superávit (0,5% do PIB em 2027 e 1,5% em 2030); manter de maneira permanente o gatilho que exclui determinadas receitas do cálculo dos gastos com saúde - hoje permitido apenas em caso de déficit; maior flexibilidade para bloquear ou contingenciar; corte de gastos tributários e o famoso pente-fino das despesas. Será apresentado um Projeto de Lei Complementar, em negociação também com a cúpula do Congresso, que pavimentará o caminho para enviar o Orçamento de 2027, agora readequado às promessas da campanha.
A notícia do colunista Lauro Jardim de que Lula se encontraria com o economista André Lara Resende alimentou a expectativa de que o presidente pudesse buscar uma nova abordagem à questão fiscal. Em artigo de setembro, o economista propôs uma faixa fixa para a Selic, levando em consideração meta de inflação e PIB potencial. A taxa de juros atual seria cortada gradualmente, e as reservas internacionais seriam usadas para evitar a depreciação cambial. As conclusões de ALR animaram o entorno do presidente, pois colocam o foco no patamar dos juros, e não nos gastos primários. Aliados mais próximos de Lula, no entanto, não o veem aderindo à pressão por alguma medida que force a derrubada dos juros. É verdade que ele deixou a turma fazer barulho com a ideia, já que a discussão engaja sua base mais à esquerda.
Lula pretende conversar com diferentes economistas nos próximos dias e fazer um pronunciamento no final de semana dizendo que tem compromisso com a questão fiscal, mas também com os mais pobres, exatamente o discurso que usou no palanque eleitoral.
Quando definir o nome que tocará a economia, não haverá a carta branca, tão almejada pelo mercado. Só a compra quem lê o Lula de hoje pelo retrovisor do Lula 1. Fernando Haddad, com toda a moral que tinha com Lula, não a conseguiu. Basta lembrar que, no final de 2024, Haddad trabalhou para que o anúncio do ajuste fiscal não fosse feito no mesmo dia que a divulgação das medidas de isenção do Imposto de Renda. Não conseguiu, e o mercado reagiu mal. Por que agora com Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí e cotado para a Fazenda, seria diferente? Até onde se sabe, a influência de Fonteles, ou de qualquer um que aparecer para assumir o cargo de ministro, sobre Lula ainda é menor que a de Haddad. Não haverá Posto Ipiranga.
O Globo
https://oglobo.globo.com/opiniao/julia-duailibi/coluna/2026/11/nao-existe-carta-branca-no-lula-4.ghtml





