Eleitor vota na urna eletrônica - Foto: Custódio Coimbra |
Não fiquem surpresos se a eleição acabar dia 4 de outubro

Não fiquem surpresos se a eleição acabar dia 4 de outubro

Maurício Moura


As disputas para governos estaduais devem terminar a sua maioria em primeiro turno

A minha avó, Dona Maria José, morava no interior de Minas Gerais e nunca teve pluviômetro. Tinha um banco de madeira no terreiro e o hábito de sentar nele, todo fim de setembro, com os olhos no chão. Via o joão-de-barro que virara a porta da casinha para o lado contrário do vento, as formigas carregando ovos em fila para o alto do barranco, a cigarra que se calara cedo demais. O céu, enquanto isso, era de um azul quase ofensivo, sem um fiapo de nuvem, e o rádio prometia sol até o fim da semana. "Vai chover feio", dizia ela, sob o riso dos vizinhos, e ia avisar todo mundo para tirar a roupa do varal. Dois dias depois, a água descia da serra em cortinas.

Em 2026, as eleições são assim. O céu está limpo: sem comício lotado, sem febre nas redes (quando o tema não é STF) e sem o barulho da decisão. O (a) eleitor(a) diz que ainda não pensou, que tanto faz (todo mundo envolvido no Master mesmo) e o país parece de braços cruzados, esperando o tempo passar. Nem parece campanha. Mas o céu é sempre a última coisa a mudar. Antes dele, mudam o bicho, o vento, o barro, o silêncio. Basta sentar no terreiro e olhar para o chão que temos vários sinais do que será o primeiro turno no dia 4 de outubro. Listemos alguns.

As disputas para governos estaduais devem terminar a sua maioria em primeiro turno. O motivo é o menor número de candidaturas. Menos candidaturas, maior chance de termos um(a) vencedor(a) antecipado(a). São Paulo e Pernambuco (com segundo turno em 2022) são exemplos. Em 2026, só há duas candidaturas competitivas em ambos. O motivo é que os partidos preferem investir o fundo eleitoral em candidaturas para a legislativas federais (que impactam o acesso ao fundo partidário, eleitoral e emendas parlamentares) do que em chapas majoritárias sem chances reais. Também esse será um ciclo de inúmeras reeleições de governadores(as) porque temos uma onda de governos bem avaliados. Em tudo constante, governos estaduais majoritariamente aprovados vencerão.

Na Câmara, a taxa de renovação deve ser baixa. Nunca uma turma de deputados(as) teve tanto recurso financeiro para buscar um novo mandato. E, também, se a distribuição de prefeituras eleitas em 2024 seguir como preditor do perfil da nova legislatura, teremos PL, PSD, PT, União-Progressista e MDB como as principais agremiações (talvez até nessa ordem). No Senado, esqueçam as pesquisas de opinião (que medem no máximo o recall). A decisão de voto é na última hora e a maioria ainda não sabe que são dois votos. Todavia, é natural imaginar que os(as) eleitos(as) terão enorme correlação de votos com governadores e candidatos a presidente bem votados de cada estado. Nesse contexto, o novo Senado provavelmente terá mais "bolsonaristas".

Na presidencial, quando o assunto for pesquisas na última semana, recomendo aos(as) leitores(as) se desgarrarem das análises da imprensa em cima de um cálculo de voto válido de pesquisas estimuladas de intenção de voto. Essa matemática ignora o perfil recorrente de abstenção (20% do eleitorado, com perfil de menor renda e escolaridade) e também minimiza o papel dos (as) indecisos(as). Aliás, muito importante, as pesquisas trazem uma amostra de 100% do eleitorado e são aproximadamente 80% que costumam votar. A única pesquisa comparável, que elimina indecisos e só entrevista quem apareceu para votar, é a boca de urna. Porém, essa pesquisa já não existe no Brasil (os resultados são divulgados a partir das 17 horas). Sobre a parcela indecisa, as pesquisas espontâneas (quando não são mostradas as alternativas) trazem uma leitura muito mais apurada do estado mental na reta final.

Sendo assim, acreditamos que a oposição vai se beneficiar novamente do antipetismo de chegada, quando há uma mudança de voto de última hora em favor do candidato mais bem posicionado para ganhar do PT. Como aconteceu em 2014, 2018 e 2022.

Portanto, há uma enorme probabilidade de um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Porém, a depender do perfil de não voto (brancos, nulos e abstenção) e da força do antipetismo de chegada, não fiquem surpresos se a eleição acabar dia 4 de outubro, inclusive com vitória da oposição. Dona Maria José, que viu de tudo em 88 anos de vida, certamente não ficaria.

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/mauricio-moura/coluna/2026/09/nao-fiquem-surpresos-se-a-eleicao-acabar-dia-4-de-outubro.ghtml