Max Cady, o vilão de "Cabo do medo", já teve várias vidas. Ele surgiu primeiro na literatura, em "The executioners", de John D. MacDonald, em 1957. Depois, marcou nas duas adaptações da trama para o cinema. Na mais recente delas, de 1991, Robert de Niro compôs um malvado tão poderoso que até o diretor do filme, Martin Scorsese, declarou ter "sentido medo dele". Agora, em sua nova encarnação, na AppleTV, Cady está a cargo de Javier Bardem. O desempenho do ator é suntuoso. A série criada por Nick Antosca tem Scorsese e Steven Spielberg avalizando tudo, como produtores executivos. Há três episódios disponíveis na plataforma e os inéditos entram toda sexta-feira (serão dez). Recomendo.
O enredo evolui em duas pontas narrativas. Numa delas está Cady. Ele passou 17 anos preso. Foi condenado pela morte a facadas de sua mulher grávida, mas é solto quando surgem provas de sua inocência. Recupera a liberdade possuído pelo desejo de vingança. É que sua advogada na época do julgamento, Anna Bowden (Amy Adams), o aconselhou a se declarar culpado na esperança de obter uma pena mais leve. Não funcionou e ele foi sentenciado à prisão perpétua. Para piorar, Anna se casou com o promotor do caso, Tom (Patrick Wilson), uma grande traição.
"Cabo do medo" joga com uma linha moral que vai se movendo na medida em que o suspense avança.
O inimigo que Cady quer destruir é a família Bowden - além de Anna e Tom, o casal de filhos adolescentes deles, Natalie (Lily Collias) e Zack (Joe Anders). O antagonismo que se estabelece, embora violentíssimo, não é o de um confronto explícito. Cady age usando estratégias de corrosão, cheias de ambiguidades. Ele planta fantasmas dentro da casa de seus adversários. Consegue acesso ao garoto por vias digitais, com uma namorada fictícia que joga iscas de apelo sexual. Também atrai Natalie através de expedientes escusos. A família vai apodrecendo. Assim, o suspense vai se aproximando do terror. Paralelamente, vamos descobrindo que Anna e Tom guardam segredos que têm relação com a condenação de Cady.
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Bardem esbanja a fúria incandescente e o carisma que o papel exige. É um vilão, mas sem simplismos: tem múltiplas facetas e um passado de abusos na infância. O ator brilha e a série é dele, ninguém duvida disso, mas as performances de Amy Adams e de Patrick Wilson também encantam.
A direção merece elogios, apesar de uma ou outra escorregada nas estetizações exageradas - luz escura demais e uso de preto e branco. Não precisava, mas não atrapalha. Essa é uma das melhores séries do ano e para ser assistida sentindo um pouquinho de taquicardia.
PS: Aproveito para recomendar "Brasil 70 - A saga do Tri", na Netflix. Ela mexe com a memória afetiva do público. Rodrigo Santoro (João Saldanha) e Bruno Mazzeo (Zagallo) estão muito bem e Marcelo Adnet faz uma simpaticíssima participação.
O Globo
https://oglobo.globo.com/kogut/2026/06/cabo-do-medo-com-javier-bardem-ja-esta-na-lista-das-melhores-series-do-ano.ghtml





