Quebra de sigilo do filho de Lula mostra cerco da oposição ao governo, por  Luiz Carlos Azedo

Quebra de sigilo do filho de Lula mostra cerco da oposição ao governo, por Luiz Carlos Azedo

A CPMI do INSS deixou de ser apenas instrumento de apuração e se converteu em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático

A quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, pela CPMI do INSS, somada à decisão judicial que já havia autorizado medidas semelhantes no âmbito da investigação criminal, representaram uma típica "bola nas costas" no Palácio do Planalto. O governo vinha administrando a comissão com relativa folga, amparado por maioria circunstancial e pela capacidade de modular convocações incômodas. A votação que atingiu o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou o eixo político da CPMI.

O fato novo não é apenas a deliberação da comissão parlamentar. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia autorizado a quebra de sigilos em investigação conduzida pela Polícia Federal. Agora, Lula está diante de um duplo cerco, um na frente política (CPMI), outro na judicial (STF), que vão se apertar e aumentar o desgaste pessoal do presidente da República e do governo.

A CPMI investiga descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS, supostamente operacionalizados por Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS". O prejuízo é estimado em R$ 6,3 bilhões e atinge um segmento social historicamente associado à base eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de um escândalo com alto potencial simbólico: envolve idosos, renda mínima e confiança no Estado.

Até a citação de Lulinha, o governo se defendia com uma narrativa eficaz: tratava-se de esquema iniciado em 2019, atravessando a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. O Palácio do Planalto tomou providências para ressarcimento e apuração rigorosa do escândalo. A entrada do filho do presidente no radar, mesmo que não seja denunciado, altera a equação. Mesmo que não se prove qualquer ilícito, o custo político é sobretudo eleitoral. A oposição ganha uma narrativa fácil para comunicação com o eleitor, associando corrupção bilionária, aposentados prejudicados e possível elo com familiar do presidente.

Como a mulher de Cesar, o dilema dos filhos de presidentes ajuda a ilustrar o problema: não basta ser honesto; é preciso parecer honesto. A situação impõe a Lula uma postura institucionalmente correta, reafirmar autonomia da PF e do Judiciário, mas pessoalmente constrangedora. A comissão deixou de ser apenas instrumento de apuração e se converte em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático.

O primeiro depende de provas; o segundo, de fatos políticos e vazamentos seletivos. Mesmo sem indiciamento, a simples manutenção do nome de Lulinha no noticiário por meses já produzirá efeito corrosivo. É nesse ponto que o governo se torna dependente do Centrão. Para evitar convocações mais agressivas, ampliação de diligências ou pautas hostis, o Executivo precisa negociar apoio permanente. Isso significa concessões orçamentárias, espaço político e influência em cargos estratégicos. O custo da governabilidade será muito alto.

Promiscuidade


Em ano eleitoral, qualquer associação entre o presidente e escândalo que atinja aposentados tem peso ampliado. Ainda que Lula tenha afirmado publicamente que "ninguém ficará livre" e que "se tiver filho meu envolvido, será investigado", a oposição explorará cada etapa da investigação como evidência de fragilidade moral. Um governo eleito com discurso de reconstrução institucional e justiça social passa a depender ainda mais de alianças pragmáticas para conter danos políticos. Escândalos envolvendo familiares têm impacto próprio. Mesmo quando não resultam em condenação, alimentam percepções difusas de promiscuidade entre público e privado. E percepções, nas eleições, são como fatos.

O INSS nasceu em 1990 da fusão do IAPAS com o INPS e convive historicamente com fraudes, desde o caso Jorgina de Freitas nos anos 1990 até os esquemas atuais. O problema é estrutural: fragilidade de controles, volume gigantesco de recursos e capilaridade nacional. O escândalo atual é ainda maior e ocorre em ambiente de hiperexposição digital. Se nada for comprovado contra Lulinha,o governo poderá alegar tentativa de exploração política. Mas até lá, a investigação será uma dor de cabeça permanente. Cada nova fase da Operação Sem Desconto, cada novo depoimento ou planilha apreendida, reacenderá a controvérsia.

O Planalto também subestimou o potencial de convergência entre investigação judicial e iniciativa parlamentar. A quebra de sigilo, tanto na esfera da CPMI quanto na decisão do ministro do STF, cria um corredor institucional difícil de bloquear sem custo político elevado. Para contê-lo, o governo terá que se entender com o Centrão nos termos estabelecidos pelos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Ontem, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI)do INSS ouviu Paulo Otávio Montalvão Camisotti, filho do empresário Maurício Camisotti, e aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fabio Luís Lula da Silva, o Lulinha.A sessão foi precedida por confusão e chegou a ser suspensa após bate-boca entre parlamentares. A base governista decidiu recorrer ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), para contestar a votação que aprovou a quebra de sigilo fiscal e bancário de Lulinha, no âmbito da CPMI do INSS. Sua decisão ainda é uma charada.

Correio Braziliense
https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/quebra-de-sigilo-do-filho-de-lula-mostra-cerco-da-oposicao-ao-governo/